"HELLOOOOOOOOW!", UM TEXTO DE THIAGO MAGALHÃES

"HELLOOOOOOOOW!", UM TEXTO DE THIAGO MAGALHÃES


No Dia da Visibilidade TRANS, 29 de janeiro de 2020, a ANTRA lançou a publicação do "Dossiê: Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2019", com o apoio do CRP 01/DF. Confira!

Thiago Magalhães e Tia Cris, com a vice-presidenta do CRP 01/DF, Carolina Saraiva, e a presidenta, Thessa Guimarães, durante o lançamento do Dossiê

 

 

“Helloooooow!”

Por Thiago Magalhães

 

No Dia da Visibilidade TRANS, 29 de janeiro de 2020, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA) lançou a publicação do "Dossiê: Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2019", com o apoio do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal (CRP 01/DF). Trata-se de um trabalho acadêmico, com tratamento empírico de coleta e análise de dados, competência que o governo brasileiro sempre se esquivou de cumprir. O dossiê foi totalmente realizado por pesquisadoras TRANS brasileiras e corrobora os dados divulgados pela ONU, em 2018, em que o Brasil desponta como o país que mais mata pessoas TRANS no mundo. Os dados denunciam como o TRANSfeminicidio é naturalizado em um Estado presumidamente democrático e laico e reforçam, ainda, que as pessoas TRANS têm uma expectativa de vida média entre 33 e 36 anos.

O lançamento do dossiê contou com a participação de instituições TRANS distritais e nacionais, da sociedade civil, de psicólogues, psicólogas e psicólogos. O evento foi transmitido on-line e pode ser acessado no link: https://bit.ly/316SQPE

Os dados do dossiê da ANTRA denunciam, empiricamente, a terrível realidade das Travestis e pessoas Trans, reafirmando todo ódio e o TRANSgenocídio em curso na nossa sociedade.

Diante dessa triste realidade, eu gostaria de compartilhar uma história pessoal. Aos dezessete anos, em meados de 1997, caminhávamos, eu e mais quatro amigos, pela W3 Sul, quando avistei minha Tia Cris em uma parada de ônibus. Ao me aproximar da Tia Cris cumprimentei-na com um abraço e um beijo carinhoso. Conversei com ela brevemente e segui com meus amigos, que me aguardavam mais à frente. Ao nos colocarmos novamente a caminho, percebi o espanto escancarado. O mais chocado deles, visivelmente confuso, me questionou de maneira agressiva se eu estava louco. Indagou-me rispidamente sobre a manifestação de afeto que ele havia presenciado entre eu e aquela pessoa, demonstrando de maneira óbvia toda sua TRANSfobia ao negar qualquer possibilidade de afeto com uma pessoa TRANS. Surpreendido diante da agressividade do meu "amigo", respondi de maneira calma, porém firme, "aquela pessoa é a minha tia! Eu jamais deixarei de cumprimentá-la para agradar quem quer que seja!".

Para além do núcleo familiar, eu vi, mais uma vez, o horror das pessoas diante da presença da minha tia. Esse fato me marcou.

A Tia Cris é uma Travesti. Ela foi expulsa da escola aos 12 anos de idade. As violências já eram vivenciadas por ela desde criança na família e a escola foi um dos muitos espaços sociais onde não coube o corpo, quiçá a vivência, de uma Travesti.

A presença da Tia Cris sempre foi negada: ela foi expulsa de todos os espaços, inclusive do nosso núcleo familiar. Convivemos à distância. Tia Cris só podia nos visitar escondida, quando meu avô não estava em casa. Eu, meu irmão e minhas duas irmãs éramos orientados a não contar nada. Meu avô não respeitava a identidade de gênero da Tia Cris. Desde criança eu não compreendia essas violências. Vovô sempre dizia que ela se vestia “daquele jeito” para agredi-lo. De maneira afetuosa, Tia Cris visitava os sobrinhos e as sobrinhas quando Vovô estava no trabalho. Quando ela podia, levava doces e presentinhos, eu adorava! As oportunidades de contato eram raras. Morávamos em outra cidade e Tia Cris nunca foi convidada para participar de um almoço ou jantar de família. Até hoje sua identidade de gênero nunca foi plenamente respeitada pela família.

A Tia Cris foi torturada pela ditadura, foi espancada pela polícia incontáveis vezes ao longo da vida. A Tia Cris apanhou, apanhou e apanhou!

Desde a minha infância eu pude presenciar o ódio gratuito no rosto de familiares, de pessoas amigas e desconhecidas direcionado para minha Tia Cris. Na juventude, analisei de maneira mais profunda e consciente como a nossa sociedade nega às pessoas Trans o direito à vida. Minha Tia não tinha o direito de ocupar os mesmos espaços políticos, sociais, culturais e econômicos que eu, que nossa família, que os meus amigos e amigas sempre ocupamos, pois fazemos parte da cisnormatividade. Eu sabia que minha Tia era profissional do sexo. Será que essa era a realidade que ela sonhava para si? Porque minha mãe tinha conseguido terminar os estudos, cursar uma faculdade federal no Estado do Rio de Janeiro, enquanto a minha Tia vivia em situação de rua na capital carioca? Enquanto minha Tia e suas amigas apanhavam do regime ditatorial, minha mãe ascendia nas Forças Armadas Brasileiras. Ainda hoje me pergunto, emocionado, como Tia Cris sobreviveu.

Com exceção da Tia Cris, eu só conhecia pessoas cisgêneras. Eu não via AS Travestis à luz do dia, não as via na escola, nos postos de saúde, nas paradas de ônibus, na padaria, na fila do banco, no clube, na praia, no shopping, no cinema, nos shows ou na televisão. Até então, nunca tinha tido uma amiga ou amigo TRANS.

Infelizmente, a história de vida da Tia Cris ainda é a realidade para a grande maioria das Travestis e das pessoas TRANS no nosso país.

Hoje eu olho para a Tia Cris e sinto tanto orgulho da sua trajetória! Eu vejo as marcas que a nossa sociedade transfóbica lhe infligiram ao longo dos seus 62 anos. Hoje eu olho para a Tia Cris e vejo em seu corpo, em sua história de vida, a personificação do que compreendo como luta, resistência, resiliência, força e, acima de tudo, eu vejo dignidade!

Aos 62 anos de VIDA, contra todas as estatísticas, a despeito de todas as violências sofridas, Tia Cris me deixa com os olhos cheios de lágrimas ao dizer, com um largo e belo sorriso nos lábios "Heloooooow... Eu faria tudo novamente, jamais deixarei de lutar para ser quem eu verdadeiramente sou, jamais deixarei que alguém me defina!".

Tia Cris, em 2019, aos 61 anos de idade conseguiu, enfim, as retificações do seu nome e do seu gênero no registro civil. Tia Cris, aos 61 anos de idade, pela primeira vez na vida, teve uma carteira de trabalho! Pela primeira vez Tia Cris teve uma carteira de trabalho formalmente assinada, para trabalhar como educadora de pares, acompanhando a população LGBT em situação de rua no Distrito Federal. Para as pessoas cisgêneras, como eu, é impossível avaliar de maneira verossímil a importância de acessar direitos tão básicos como o de ter o seu nome registrado nos próprios documentos, a importância de se reconhecer naqueles documentos!

Em nome da Comisão LGBTQI+ do CRP 01/DF, eu gostaria de enaltecer e de agradecer às existências das Travestis e das pessoas TRANS. Gostaria de reafirmar o compromisso da Psicologia na garantia e na proteção dos direitos das Travestis e das pessoas Trans. Gostaria, acima de tudo, que nós, pessoas cisgêneras, pratiquemos a empatia, a solidariedade, o respeito, a fraternidade para com todas as Travestis e pessoas TRANS. Que todes, todas e todos nós combatamos opressões e violências que cerceiam o direito inalienável à vida das pessoas TRANS!

"Heloooooow!”

 

Thiago Magalhães, coordenador da Comissão Especial LGBTQI+ do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal. Thiago é gay, psicólogo (UFSJ) e mestre em Educação Especial (UFSCar). Ativista LGBT e de Direitos Humanos. Atua como psicólogo escolar da Universidade de Brasília, discutindo e desenvolvendo políticas institucionais e educacionais sobre direitos humanos, especialmente sobre questões de identidade de gênero e diversidade sexual

 

 

Veja as fotos do evento: https://bit.ly/2UdlBc7


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