CLÍNICA INTERDISCIPLINAR EM ESTIMULAÇÃO PRECOCE ATRAVESSADA PELO VIÉS PSICANALÍTICO. IMPLANTAÇÃO DO SERVIÇO NO CENTRO ESPECIALIZADO EM REABILITAÇÃO – CER BRASÍLIA-DF

CLÍNICA INTERDISCIPLINAR EM ESTIMULAÇÃO PRECOCE ATRAVESSADA PELO VIÉS PSICANALÍTICO. IMPLANTAÇÃO DO SERVIÇO NO CENTRO ESPECIALIZADO EM REABILITAÇÃO – CER BRASÍLIA-DF


Por Alessandra Garcês Celestino Moreira (CRP 01/10086)*

Publicado originalmente em 26/08/2019

A partir de algumas inquietações, dessas que nos movem, percebi que o CER pode se tornar um local de intervenção que favoreça a constituição psíquica.

O encaminhamento de um bebê para esse serviço acontece após o diagnóstico de um problema orgânico como síndromes genéticas, lesões neurológicas, prematuridade e por sinais que escapam aos parâmetros da faixa etária, como atrasos no desenvolvimento psicomotor sem causa orgânica definida.

Dentre os dispositivos mais recentes para minimizar os "abismos" na implantação de serviços interdisciplinares de estimulação precoce, está a Lei nº 13.438/2017 que torna obrigatória a aplicação a todas as crianças, nos seus primeiros 18 meses, de protocolo ou outro instrumento construído com a finalidade de facilitar a detecção, em consulta pediátrica de acompanhamento da criança de risco para o seu desenvolvimento psíquico.

Portanto, o principal objetivo é intervir de forma interdisciplinar a partir dos primeiros sinais de sofrimento psíquico em crianças na primeiríssima infância (0 a 3 anos), antes que os processos psicopatológicos propriamente ditos se instalem.

Constituição psíquica

Jerusalinsky (2016) pontua que a infância se define por quatro acontecimentos decisivos: crescimento, maturação, desenvolvimento e constituição psíquica. Situa-se aqui uma grande diferença entre práticas que desconhecem a constituição psíquica articulada ao desenvolvimento e realizam múltiplas intervenções que fragmentam a unidade imaginária do corpo da criança. A constituição do sujeito se faz no laço com os outros, especialmente com quem exerce as funções materna e paterna.

Algumas crianças se desenvolvem de maneira atípica, o que intriga e que coloca os conhecimentos à prova. Crespin (2004) identificou sinais observáveis de sofrimento em bebês, como as recusas alimentares recidivas e resistentes, o evitamento seletivo do olhar, a presença dos gritos inarticulados, inconsolabilidade, transtornos do sono, poucas vocalizações, hipotonia, hipertonia, além dos atrasos psicomotores podem representar o diálogo tônico-postural.

Metodologia IRDI

Um desses instrumentos para intervenção e orientação na primeira infância é o IRDI - Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil. Trata-se de um protocolo composto por 31 indicadores e as ausências destes sugerem um risco para o desenvolvimento da criança. Foram construídos a partir de quatro eixos teóricos considerados fundamentais para a constituição do psiquismo: suposição do sujeito, estabelecimento da demanda, alternância presença/ausência e função paterna.

Intervenção precoce

Diversos estudos alertam a necessidade de intervenção precoce no sofrimento psíquico infantil. Esse tempo inicial é precioso, na medida em que ocorrem as primeiras marcas psíquicas que subsidiarão a constituição psíquica. Profissionais são unânimes em afirmar que se o bebê possui um atraso em suas aquisições é o suficiente para o início da intervenção. Esperar para intervir pode equivaler a uma não assistência à pessoa em perigo (Laznik, 2011).

A equipe precisa se implicar no resgate, abertura e construção de um novo lugar subjetivo para o sujeito. Deve atentar-se aos processos particulares e aos sinais que indicam falhas, dificuldades e/ou impedimentos de constituição psíquica. Um sinal sozinho não indica uma patologia, mas precisa estar associado a uma série de outros sinais, compondo um sentido.

É a partir desse corte epistemológico que o trabalho clínico é conduzido não pela mera exercitação da função de um órgão, mas pela possibilidade de que a função materna e/ou função paterna sejam exercidas para o bebê diante dos eixos constituintes citados.

Nesse movimento, o profissional é um mediador, nomeando o sofrimento da família, a desculpabilizando, legitimando as falas, ofertando um espaço para o re(estabelecimento) de suas próprias funções parentais. Promove-se a singularidade, circulação da palavra, criatividade, ascendo a lugares simbólicos e ao sujeito do desejo.

Referências bibliográficas

CRESPIN, GRACIELA. Os sinais de sofrimento precoce. In: A clínica precoce: o nascimento do humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

KUPFER, M.C.M., BERNARDINO, L.M.F., MARIOTTO, R.M.M. De bebê a sujeito: A Metodologia IRDI nas creches. São Paulo: Escuta/FAPESP, 2014.

JERUSALINSKY, JULIETA. Enquanto o futuro não vem: a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. Salvador: Álgama, 2002.

JERUSALINSKY, JULIETA (org). Travessias e travessuras no acompanhamento terapêutico.Salvador: Álgama, 2016.

LAZNIK, MARIE-CHRISTINE. Rumo à fala – três crianças autistas em psicanálise. Rio de Janeiro: Cia de Freud editora (Original publicado em 1995), 2011.

*Alessandra Garcês Celestino Moreira (CRP 01/10086)

Psicóloga na Secretaria de Estado de Saúde do GDF desde 2011. Especialista em Psicoterapia de Base Analítica de Crianças e Adolescentes; Arteterapeuta; Especialista em Psicologia da Saúde e Hospitalar.