TORTURA VERSUS DESEMPENHO PROFISSIONAL: O QUE SE ESPERA DO TRABALHO NO SÉCULO XXI?

TORTURA VERSUS DESEMPENHO PROFISSIONAL: O QUE SE ESPERA DO TRABALHO NO SÉCULO XXI?


Por Luciana Mercês de Lucena (CRP 01/8625)*

Publicado originalmente em 05/08/2019

Ao assistir ao programa jornalístico Bom Dia Brasil no dia 21 de junho de 2016, uma notícia, em particular, interrompeu o meu bom humor matinal. O anúncio da reportagem destacava: Funcionários de banco na China levam surra por desempenho ruim”. Num primeiro momento, recusei-me a acreditar no que estava vendo, mas a notícia me parecia tão absurda que fiz questão de ouvir e ver até o final para entender do que se tratava, principalmente porque o episódio parecia ter ocorrido num contexto de trabalho.

O jornal mostrou um vídeo que circulou pelas redes sociais com imagens inacreditáveis de um homem aplicando castigos em oito funcionários (quatro homens e quatro mulheres), de um banco de Changzi, cidade que fica ao norte da China. Na cena os funcionários foram questionados sobre o “desempenho ruim” que tiveram no trabalho, e em seguida começou um espancamento em cada um deles, um de cada vez, com o que parecia ser uma vara de madeira. Enquanto tudo ocorria, outros funcionários assistiam à cena. O banco afirmou que contratou uma empresa para fazer um “treinamento” para melhorar a performance dos funcionários, e alguns ainda disseram que, além do espancamento, o tal treinamento previa também raspar o cabelo daqueles que não cumprissem as metas.

Diante de tal situação e de outras similares que são noticiadas nas redes sociais e mídias televisivas, me vieram à mente algumas indagações: como pode isto ocorrer em pleno século XXI, onde a questão dos direitos humanos é apregoada fortemente na sociedade contemporânea? O que significa desempenho ruim no trabalho? Por que o discurso da importância da saúde do trabalhador se vê cada vez mais presente em dirigentes e gestores de organizações públicas e privadas, bem como na mídia, na literatura das ciências humanas e sociais, do trabalho e da saúde? O assunto “saúde do trabalhador” virou moda e está presente na agenda dos atores do mundo do trabalho, guardando interface com o que preconiza a agenda de trabalho decente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), como também de governos internacionais e brasileiro.

Para a OIT, a noção de trabalho decente se apoia em quatro pilares estratégicos, que, resumidamente são: 1. Respeito às normas internacionais do trabalho, em especial aos princípios e direitos fundamentais do trabalho (que incluem a eliminação de todas as formas de trabalho forçado); 2. Promoção do emprego de qualidade; 3. Extensão da proteção social e; 4. Diálogo social. A promoção do trabalho decente é uma prioridade em alguns governos, a exemplo do brasileiro e dos governos do hemisfério americano. Talvez o mesmo não ocorra em países do hemisfério oriental, cujas condições de trabalho talvez sigam outras premissas, diferentes das que apregoa a OIT, e que precisam ser melhor investigadas.

Para responder às indagações levantadas e outras tantas que surgem em decorrência das transformações contemporâneas do mundo do trabalho, bem como da reestruturação produtiva que ocorre em escala mundial, se faz necessário compreender a fundo esse cenário onde um conjunto de indicadores críticos tem sido produzido e que coloca em destaque a importância do resgate do sentido do trabalho, contexto que tem privilegiado políticas de gestão voltadas mais para os resultados do que para os processos, sem nenhuma gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Importante também que haja uma formulação de políticas públicas voltadas para a vigilância, a assistência e, sobretudo, a promoção da saúde nos contextos de trabalho, e do aprimoramento do aparato jurídico de proteção do bem-estar dos trabalhadores nos ambientes de trabalho.

A cena de tortura ocorrida com os funcionários do banco chinês veiculadas nas redes sociais causou sentimento de revolta e suscitou discussões a respeito das condições de trabalho decente, e nos incitou a retomar a discussão a respeito de riscos ocupacionais, de qualquer natureza, que têm efeito direto no surgimento de danos à saúde física e mental do trabalhador. Violência de qualquer ordem, seja física ou mental, não dialoga com desempenho profissional, com saúde do trabalhador, nem com nenhum contexto da vida humana, sobretudo o contexto do trabalho, onde nos constituímos como seres humanos e onde o sentido de viver se faz presente. É de suma importância conhecer e fortalecer abordagens de gestão de riscos psicossociais de viés preventivo e contra-hegemônico, de maneira que o século XXI retrate, de fato, o trabalho como algo que se espera de um “século do futuro”, antes que o mesmo acabe.

*Luciana Mercês de Lucena (CRP 01/8625)

Doutoranda em Psicologia Social, das Organizações e do Trabalho (UnB), Mestrado em Psicologia (UCB), MBA em Gestão de Projetos (UCB), Especialização em Psicologia Clínica da Saúde (UnB), Especialização em Ontologia da Linguagem (UCB), Graduada em Psicologia (UniCEUB). Formação em Coach Ontológico Organizacional pela Newfiled Consulting. Experiência como psicóloga clínica, organizacional na área de treinamento, desenvolvimento e coaching, em gestão de projetos, e docência (graduação à distância e presencial). Trabalha no Serviço Social da Indústria, Departamento Nacional (SESI/DN), com ações relacionadas à promoção da saúde e segurança no trabalho, prevenção de doenças, sobretudo transtornos mentais e comportamentais, com objetivo de contribuir para a redução dos afastamentos dos trabalhadores.