O IMPORTANTE PAPEL DA PSICOLOGIA NA AFIRMAÇÃO DA VIDA DE PESSOAS TRANS

O IMPORTANTE PAPEL DA PSICOLOGIA NA AFIRMAÇÃO DA VIDA DE PESSOAS TRANS


Por Felipe de Baére (CRP 01/19621)*

Publicado em 29/01/2019

Na semana em que se promove o Dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro), torna-se ainda mais relevante trazer apontamentos que visam a aproximar a práxis de profissionais da Psicologia ao universo de pessoas transexuais e travestis. Tendo em vista que o ano se inicia com a divulgação de muitos casos de suicídio e de homicídios praticados com extrema crueldade contra essa população, precisamos refletir sobre o impacto da transfobia na saúde mental desses sujeitos. Portanto, inicialmente, é imprescindível acompanhar as demandas de pessoas trans, sem o agenciamento de quaisquer preconceitos por meio da patologização de suas existências.

Uma parcela dos profissionais da Psicologia utiliza o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e/ou o Código Internacional de Doenças (CID) como bússolas norteadoras de suas ações. E ainda que essas obras estejam suprimindo a conotação patológica atribuída às existências trans a cada edição, ambas persistem na lógica de que os sujeitos em conformidade com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento (cisgêneros) são o referencial de normalidade.

O diagnóstico “Disforia de Gênero”, presente na quinta edição do DSM, e “Incongruência de Gênero”, como pretende abordar a décima primeira edição do CID, presumem a existência de uma identidade de gênero natural, genuína. No caso, a cisgeneridade. Portanto, entende-se que o critério de normalidade proposto pelas obras científicas é o estatístico, ou seja, os contornos do que é considerado “normal” são delineados pela maioria da população. O problema de tal parâmetro, nesse caso, é desconsiderar o impacto sociocultural na construção de universos simbólicos que, por sua vez, repercutem na produção de subjetividades. Se hoje é mais viável para as pessoas se afirmarem trans, é porque tem se tornado possível contar com a disponibilidade de um maior aparato simbólico para essa identificação. 

Logo, é possível observar um impasse: embora muitos profissionais da Psicologia se orientem por esses manuais de classificação de doenças, já existe o entendimento, por meio da Resolução 01/2018 do Conselho Federal de Psicologia, de que nossa categoria não deve exercer quaisquer atividades que propiciem a patologização de transexuais e travestis. Consequentemente, ainda é comum os relatos de pessoas trans que se sentiram desconfortáveis com profissionais que acompanharam suas demandas na clínica de maneira enviesada. Atribuir unicamente à causa do sofrimento psíquico de pessoas trans a sua própria transgeneridade, por exemplo, é ignorar toda a estrutura social transfóbica que opera na vulnerabilização da vida dessas pessoas.

O mesmo costuma ocorrer nas justificativas específicas dadas ao suicídio de pessoas trans. Comumente, à causa do autoextermínio é atribuída o adoecimento mental, um transtorno específico. “Tinha depressão”, “Era borderline”. De fato, o sofrimento psíquico insuportável é vivido pela maioria das pessoas que tira a própria vida, mas o comportamento suicida não deveria se resumir a um psicodiagnóstico, que pode ter como consequência a restrita responsabilização da pessoa pelo seu ato, desconsiderando os contextos nos quais ela está inserida. Por trás de uma pessoa que se mata, há múltiplos fatores que a fragilizam ao longo da vida, sendo que, para determinadas pessoas que não se enquadram nos padrões normativos, esses fatores envolvem todas as violências, físicas, materiais e simbólicas sofridas por elas, unicamente por não estarem alinhadas ao que é estabelecido como normal e apropriado.

Portanto, para que a nossa categoria elimine da prática clínica vieses transfóbicos, preconceituosos, é preciso que seus profissionais se aprofundem nas temáticas sobre identidade de gênero, leiam a Resolução CFP n° 01/2018 e tirem suas dúvidas com quem já tem familiaridade com esses casos. Ampliar nossos olhares neste campo é uma forma de nos aproximarmos dos princípios apresentados em nosso Código de Ética Profissional e faz com que a Psicologia se torne ainda mais aliada na luta pela afirmação da vida de pessoas trans.

*Felipe de Baére (CRP 01/19621)

Membro da Comissão Especial LGBT do CRP 01/DF
Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura - UnB│PPGPsiCC
Mestre em Psicologia Clínica e Cultura  - UnB│PPGPsiCC
Psicologia - Bacharelado, Licenciatura e Habilitação Psicólogo - UnB│IP
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0668779871360817