
#DiálogosPsi #OrgulhoLGBT+
No dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, o CRP 01/DF compartilha com você uma conversa entre psicólogas sobre cuidado em saúde mental, garantia de direitos e enfrentamento à LGBTfobia.
Nesse diálogo, a conselheira do CRP 01/DF Amanda de Moraes (CRP 01/20580), que também é membra da nossa Comissão Especial de Psicologia e Diversidade Sexual e Gênero, conversa com a psicóloga Danielle Campelo (CRP 01/24958), profissional com atuação clínica junto à população LGBTQIAPN+ e formação em Direitos Humanos, Acessibilidade e Inclusão. Elas se aprofundam no tema, dando destaque aos desafios enfrentados por essa população e o papel da Psicologia na promoção de direitos e no cuidado ético e qualificado.
Ao longo da conversa, são abordados assuntos como políticas públicas de saúde, proteção psicossocial, prática clínica afirmativa, enfrentamento à discriminação e cuidados éticos necessários para uma atuação profissional comprometida com a diversidade.
Confira a íntegra do diálogo no site do CRP 01/DF a seguir.
Neste Dia Internacional do Orgulho LGBT+, o CRP 01/DF reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, o enfrentamento à LGBTfobia e a promoção de uma Psicologia ética, inclusiva e comprometida com o respeito à diversidade.
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AMANDA DE MORAES: Para iniciar nossa conversa, gostaria que você se apresentasse brevemente à nossa categoria: quem é Danielle Campelo, qual é sua trajetória profissional, o que a motiva a atuar nos temas de diversidade sexual e de gênero?
DANIELLE CAMPELO: Sou psicóloga clínica e analista do comportamento, com especialização em Neuropsicologia e em Direitos Humanos, Acessibilidade e Inclusão pela Fiocruz.
A minha motivação para atuar com as demandas de diversidade sexual e de gênero vem da própria prática: na minha trajetória, a população começou a chegar ao meu consultório buscando atendimento. Minha resposta imediata foi acolher e, a partir daí, estudar, compreender as demandas de cuidado em saúde mental, além de me capacitar para oferecer o acolhimento e cuidado em saúde humanizado. Como profissional de saúde, eu compreendo que o cuidado não tem gênero, não tem orientação e não faz distinções; o cuidado em saúde mental é para todas as pessoas.
AMANDA DE MORAES: Atualmente, quais são as principais ferramentas de cuidado em saúde e proteção à população LGBTQIAPN+ no Brasil? Elas têm sido suficientes?
E sobre as ferramentas jurídicas e institucionais de proteção a essa população, conte quais são as principais e se têm sido suficientes.
DANIELLE CAMPELO: No campo da saúde e da proteção psicossocial, a principal ferramenta norteadora no Brasil é a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que busca garantir o acesso equitativo e integral no SUS. Paralelamente, o setor privado de saúde, por meio de clínicas e institutos especializados, tem se tornado um ecossistema fundamental de cuidado.
No entanto, essas ferramentas ainda não têm sido suficientes. Sob a perspectiva da análise do comportamento e dos direitos humanos, o preconceito institucionalizado atua como uma barreira que impede o acesso ao cuidado, gerando o chamado “estresse de minoria” — um desgaste psicossocial e neurológico decorrente de um ambiente hostil. Portanto, as ferramentas de cuidado existem, mas a equidade no acesso e a humanização do cuidado enfrentam desafios.
AMANDA DE MORAES: Em sua avaliação, qual tem sido o papel do Sistema Conselhos de Psicologia no enfrentamento à LGBTfobia? E na garantia de direitos?
DANIELLE CAMPELO: O Sistema Conselhos (CFP e CRPs) tem um papel fundamental no processo de cuidado. A Resolução CFP nº 01/1999 (que impede a patologização da homossexualidade) e a Resolução CFP nº 01/2018 (voltada às identidades trans e travestis) são marcos científicos e políticos de proteção da dignidade humana. O papel do Sistema vai além da fiscalização: ele atua de forma pedagógica, reafirmando que a Psicologia brasileira não compactua com terapias de reversão ('cura gay') e promovendo uma prática baseada em evidências que respeita a pluralidade humana.
AMANDA DE MORAES: Além dos marcos legais, que outras estratégias ou redes de apoio são fundamentais para a proteção psicossocial dessa população?
DANIELLE CAMPELO: O fortalecimento dos vínculos familiares (sejam eles da família de origem ou das redes de apoio afetivo e de escolha), que atuam como a primeira e mais potente barreira de proteção emocional. Em uma jornada lado a lado com o núcleo familiar, é indispensável o fortalecimento de coletivos e ONGs LGBTQIAPN+, casas de acolhimento e cursos populares.
AMANDA DE MORAES: O que é uma "prática clínica afirmativa" em relação às identidades LGBTQIAPN+?
DANIELLE CAMPELO: Idealmente, nós nem deveríamos precisar utilizar o termo 'prática afirmativa'; deveríamos falar apenas sobre o cuidado em saúde mental de pessoas, realizado por profissionais de saúde que atuam rigorosamente livres de preconceitos.
Contudo, diante de um histórico de discriminação, a prática clínica se faz necessária como um posicionamento ativo. Ela se traduz no profundo conhecimento humano sobre o acolhimento, onde o foco da(o) psicóloga(o) não é investigar ou questionar a identidade ou orientação da pessoa, mas sim acolher e manejar as demandas trazidas pelas contingências do preconceito.
Trata-se de construir um ambiente clínico que respeita, valida e reconhece a identidade da pessoa, compreendendo que o sofrimento psíquico trazido à sessão é, muitas vezes, o resultado de um ambiente social hostil. É, essencialmente, fazer com que a clínica cumpra o seu papel fundamental: ser um espaço de cuidado universal, humanizado e seguro.
AMANDA DE MORAES: Na prática clínica, quais são os sinais de que um atendimento psicológico está reproduzindo atitudes LGBTfóbicas, ainda que de forma sutil?
DANIELLE CAMPELO: Esses sinais podem se apresentar de várias formas na clínica:
• Curiosidade patológica: Focar excessivamente na transição ou na vida sexual da pessoa quando a demanda trazida é outra (ex: uma queixa de ansiedade profissional ou rotina de estudos).
• Minimização do sofrimento: Atribuir conflitos cotidianos estritamente à orientação ou identidade da pessoa paciente, ou ignorar o peso do racismo, capacitismo e LGBT+fobia nas queixas clínicas cotidianas.
• Imposição de vieses normativos: quando a pessoa profissional adota a heterossexualidade e a cisgeneridade como o padrão esperado de desenvolvimento, forçando a pessoa paciente a ter que "afirmar" ou "explicar" sua identidade.
AMANDA DE MORAES: Como profissionais de Psicologia devem lidar com suas próprias crenças, valores ou desconfortos pessoais em relação à diversidade sexual e de gênero em sua prática profissional?
DANIELLE CAMPELO: O nosso Código de Ética Profissional é imperativo: a(o) psicóloga(o) não pode utilizar o divã para projetar seus dogmas, preconceitos ou convicções religiosas. Se a pessoa profissional identifica em si mesmo um desconforto, um viés moral ou falta de conhecimento técnico para atender a essa população, ela(e) deve buscar imediatamente supervisão clínica, psicoterapia pessoal e letramento teórico.
AMANDA DE MORAES: Quais cuidados éticos e técnicos são indispensáveis na produção de documentos psicológicos (laudos, pareceres, relatórios) envolvendo pessoas LGBTQIAPN+?
A redação de prontuários, relatórios, laudos ou pareceres não é um ato meramente burocrático, mas uma extensão fundamental do próprio cuidado clínico.
Esse processo fundamenta-se no uso estrito do nome social e dos pronomes de escolha da(o) paciente, garantindo que o registro seja um espaço de validação identitária, e não de violência institucional. Além disso, é indispensável o compromisso com a despatologização, o que significa eliminar termos defasados e jamais associar a orientação sexual ou identidade de gênero a transtornos ou desvios psíquicos.
AMANDA DE MORAES: Para encerrar… que orientação prática você deixaria para psicólogas(os) que desejam tornar seus consultórios e sua escuta clínica verdadeiramente acolhedores para a população LGBTQIAPN+?
DANIELLE CAMPELO: A minha principal orientação parte da minha própria vivência: nós, pessoas profissionais de saúde, precisamos compreender que estamos sempre em processo de desenvolvimento. O ponto de partida é estar genuinamente aberto ao cuidado e lembrar que, antes de qualquer categoria ou conceito, estamos acolhendo e cuidando de uma pessoa em sua inteireza, livre das amarras dos preconceitos.
No entanto, a boa intenção precisa vir acompanhada de ações práticas e contínuas, como:
• Busca por letramento técnico: Estudar as especificidades da saúde mental dessa população para compreender como o ambiente impacta o comportamento e as emoções.
• Discussão de casos e participação em fóruns: Trocar experiências com os pares, participar de debates e supervisões clínicas para refinar o processo de acolhimento.
• O valor do convívio: Sair da teoria e se aproximar da realidade. O convívio e a proximidade com as vivências reais nos ensinam coisas que os manuais não dão conta.
Quando nos despimos de certezas absolutas e buscamos conhecimento para compreender a pessoa na sua inteireza, o consultório se torna, naturalmente, um espaço seguro de cuidado em saúde mental e acolhimento.