ENTRE NÓS: FORTALECENDO OS VÍNCULOS E O CUIDADO ENTRE MULHERES NEGRAS

ENTRE NÓS: FORTALECENDO OS VÍNCULOS E O CUIDADO ENTRE MULHERES NEGRAS


Artigo de autoria das psicólogas Joyce Avelar e Paula Gabriela, em referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”

Angela Davis

bell hooks nos diz que “Para conhecermos o amor, primeiro precisamos aprender a responder às nossas necessidades emocionais” (2006, p. 6). Há algo muito potente nesse ensinamento, sobretudo quando entendemos que historicamente, nós, mulheres negras, aprendemos que essas necessidades não são importantes.

Nós somos ensinadas desde cedo que somos responsáveis em dar suporte para os outros; somos nós que cuidamos dos nossos irmãos/ãs, filhos/as (nossos e da patroa), da casa (nossa e da patroa), amigos/as, parceiros/as e vizinhos/as.

Essa atribuição, que é naturalizada como se fosse esta a nossa função no mundo, não se inicia hoje, mas é fruto de uma lógica escravocrata em que mulheres negras escravizadas eram amas de leite, cozinheiras, domésticas e curandeiras. Ser cuidadora significava servidão e submissão.

Tal imaginário social, segundo o qual mulheres negras devem ser cuidadoras, exige que sejamos sempre fortes, atentas e prontas para atender às demandas dos outros. Ser tudo pelo outro impõe uma lei: a anulação das próprias demandas, emoções, desejos, sonhos… a anulação de si e da própria humanidade. Ser essencialmente cuidadora ainda é servidão quando não há paridade, pois frequentemente não somos cuidadas de volta e temos dificuldades em pensar nosso autocuidado, e muitas vezes sentimos culpa quando nos priorizamos nesse cuidado. Nesse processo, estamos sempre engolindo palavras, emoções e produzindo autossilenciamentos.

É importante nos (re)conectarmos com a história para não nos culpabilizarmos pelas feridas que não se iniciam em nós; ao invés de culpa, precisamos olhá-las com cuidado e com autocomprometimento. Somos submetidas ao autossilenciamento, pois como nos mostra Bell Hooks (2006) a sobrevivência da população negra no período da escravidão dependia da capacidade de reprimir sentimentos e emoções diante dos abusos e da  violência dos escravocratas, expressar-se poderia significar punição ou até mesmo a morte. Por isso, por muito tempo associamos o nosso silêncio à força de suportar tudo sozinhas. Solidão e força surgem na nossa existência como imperativos de opressão.

Precisamos ressignificar a ideia de que força é o estado permanente de silêncio e amparo ao outro. Audre Lorde (1978) nos provoca a pensar sobre como a tirania do silêncio cria uma falsa sensação de proteção contra o medo da visibilidade, do julgamento e da vulnerabilidade. O seu silêncio te protege ou te aprisiona?

Para Audre Lorde (1978), a linguagem e a visibilidade nos projeta e nos afirma no mundo, e se em alguma medida isto nos vulnerabiliza por sermos mulheres negras, torna-se também a força e a determinação da nossa ação, pois nos garante o poder de narrar a nós mesmas e nos lança para transformação pessoal e coletiva.

Ao transformar o silêncio em linguagem e ação, passamos a valorizar os nossos afetos, quem somos e o que sentimos, e é desta forma que conseguimos nos cuidar.

Ainda, ao falarmos sobre nós e entre nós, descobrimos, na troca das palavras e dos afetos, que muitas das nossas dores são raízes do mesmo tronco da história, uma história coletiva que se mistura na particularidade da nossa existência. Percebemos os nossos entrelaçamentos.

Estar entre negras nos possibilita assumir nossa fragilidade, vulnerabilidade, raivas, amores, alegrias, sonhos, esperanças, medos, enfim, permite-nos sermos inteiras no agora, no que já foi e nas possibilidades que estão por vir.

Estar entre negras é se fortalecer, cuidar-se, relaxar os ombros, é estar segura e menos alerta. É o amor e o cuidado reverberando para nós e entre nós. É o quilombo que resiste ao sistema que nos oprime e goza com nossas dores.

Atirar nossa palavra no mundo finca nele a nossa identidade, nos vincula a outras mulheres negras, ao mesmo tempo em que recusa a servidão imposta pelo ato de se calar.

Atirar-se no mundo requer amor a si mesma. Amar a si mesma é um caminho a ser descoberto e construído em nossa singularidade. É olhar para si e questionar-se sobre os próprios desejos, prazeres, sonhos. É abertura para a escuta, para o pedido de cuidado (sim, nós também merecemos ser cuidadas pelo outro) e para recusa de cuidar (nós não temos que cuidar sempre do outro).

Dessa forma, vamos testando, descobrindo as doses do sim e do não, vamos nos equilibrando nessa corda bamba do autoconhecimento que é feita de avanços e retrocessos.

É na intimidade consigo mesma que aprendemos o que é amar-se e o quanto esse amor interior nos potencializa. Nesse 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, nosso desejo é que possamos existir de forma total, retomando a cada dia o desejo de ser feliz, de ser amada, de ser cuidada e se cuidar. É também parte do processo da criação de um lugar melhor pra se viver; partir de si para encontrar o outro. É abrir a si, confiando que o amor que se tem reverbera e pode fluir para o ambiente em que vivemos. É um estar plenamente em si e ser inteira no mundo também.

Referências:

hooks, bell. (2006). Vivendo de amor. Recuperado de <http://www.olibat.com.br/documentos/Vivendo%20de%20Amor%20Bell%20Hooks.pdf>.

Lorde, Audre. (1978). A transformação do silêncio em linguagem e ação. Disponível em: < https://we.riseup.net/assets/171382/AUDRE%20LORDE%20COLETANEA-bklt.pdf>.

Joyce Avelar é psicóloga clínica afrocentrada, membra da Comissão Especial de Raça e Povos Tradicionais do CRP 01/DF e integrante da Associação Nacional de Psicólogas(os) e Pesquisadoras(os) Negras(os) (Anpsinep/DF);

Paula Gabriela é psicóloga clínica, mestra em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA, membra da Comissão Especial de Raça e Povos Tradicionais do CRP 01/DF e integrante da Associação Nacional de Psicólogas(os) e Pesquisadoras(os) Negras(os) (Anpsinep/DF).

Na imagem:  Luísa Mahin, mulher escravizada de origem árabe, uma malês, comprou sua liberdade no começo do século XIX e ganhava a vida como quituteira em Salvador. Seu filho – o abolicionista Luiz Gama – relatou que a mãe dizia ter sido princesa na África antes de ser escravizada. Os revolucionários transmitiam mensagens através de seus tabuleiros de quitutes, que circulava em toda a Salvador, assim organizando as revoltas escravas e separatistas, incluindo a Sabinada (1837-38).


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