III JORNADA BRASILIENSE DE PREVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL NO TRABALHO DEBATE O CENÁRIO E O LUGAR DO TRABALHO NO CONTEXTO ATUAL

III JORNADA BRASILIENSE DE PREVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL NO TRABALHO DEBATE O CENÁRIO E O LUGAR DO TRABALHO NO CONTEXTO ATUAL


Evento contou com a presença de diversos especialistas

O Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal (CRP 01/DF), por meio de sua Comissão Especial de Psicologia Organizacional e do Trabalho, e em parceria com a Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT) e Controladoria-Geral do União (CGU), realizou no dia 29 de abril a terceira edição da Jornada Brasiliense de Prevenção em Saúde Mental no Trabalho.

A abertura ocorreu com a conferência "Gestão eticamente sustentável: integridade, gestão de pessoas e saúde mental no trabalho” proferida pelo Conselheiro Vitor Barros Rego. Nesta, pontuou o descompasso de algumas práticas de gestão de pessoas em sanar e coibir os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. Salientou a necessidade dos psicólogos aprimorarem suas ferramentas e atuação para que não propaguem práticas abusivas que podem levar ao adoecimento, bem como para ajudar as organizações a evitarem adoecimento e assédio moral no trabalho. Em seguida, aconteceu a mesa-redonda “Trabalho e saúde do trabalhador no Brasil".

Na oportunidade, a professora doutora e socióloga Vera Lúcia Navarro apresentou um panorama das condições de trabalho no Brasil desde a época da escravatura até a realidade atual. Pela explanação da professora Drª, é possível perceber em comportamentos atuais alguns resquícios de condutas abusivas, de não reconhecimento de direitos e/ou de retirada de direitos de trabalhadores. "De acordo com o Ministério Público do Trabalho, a cada 48 segundos acontece um acidente de trabalho e a cada 3 horas e 38 minutos, um trabalhador perde a vida no país. E nós sabemos que há uma subnotificação, então esse número que é alarmante, ainda não é o real. Muita gente que sofre acidente esconde esse acidente para não perder o emprego, para não ficar na lista suja dos empresários, porque sabemos que muitas empresas, principalmente na área rural, têm essa prática", alertou a professora em seu tempo de fala durante o evento.

As atividades do período da tarde iniciaram com a mesa-redonda "Gestão de pessoas e saúde mental no serviço público: propostas e experiências", que contou com a mediação de Carlos Cézar, do Ministério da Economia, e a participação das psicólogas Ângela Ferreira, da CGU, Karine Perez, da UNISC/RS e Andrea Chaves, do SAMU-SES/DF.

A psicóloga Ângela Ferreira abordou medidas de prevenção em saúde mental, intervenção em crise e modalidades de ação em situações de suicídio no ambiente de trabalho. Sua explanação baseou-se em experiência do programa "De bem com a vida", criado pela Controladoria-Geral da União (CGU) que visa atender aos servidores da autarquia: "O tema saúde mental não está longe, não está no outro: é algo presente na vida de cada um de nós", ressaltou. Ainda, chamou atenção para que psicólogos busquem apoio em documentos reconhecidos para apoiarem-se em ações nas quais atuam, como da OMS (Organização Mundial da Saúde), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

A Profa. Dra. Karine Perez, do curso de Psicologia da UNISC/RS, falou sobre suas observações durante pesquisa de doutorado com trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando a importância da intervenção em saúde mental no serviço público: "Se queremos cuidado efetivo com o usuário do sistema de saúde, precisamos investir no cuidado com a saúde do trabalhador desse sistema", alertou durante sua fala à mesa. A partir deste pressuposto, orientou sua fala para que o tema saúde mental no trabalho comece com a escuta e manejo das emoções daqueles que cuidam.

A psicóloga Andréa Chaves, por sua vez, compartilhou sobre o programa "Cuidando de quem cuida", criado no SAMU para lidar com o sofrimento latente dos profissionais que atendem aos chamados da população. Relatou a exaustiva realidade dos profissionais desta unidade mas também as soluções que estão sendo construídas para evitar adoecimentos crônicos. Até o momento, os resultados tem se mostrado bastante positivos neste objetivo de se prevenir saúde mental no trabalho. Ao final, salienta aos psicólogos sobre a causa: "A saúde do trabalhador perpassa qualquer lugar onde o psicólogo vai atuar".

A III Jornada Brasiliense de Prevenção em Saúde Mental no Trabalho foi encerrada com a mesa-redonda "Aspectos periciais do acidente de trabalho por transtorno mental e comportamental", com o Professor Dr. Bruno Chapadeiro, da UFTM e a advogada Betania Hoyos, do escritório BOCH Advogados. A advogada, que tem vasta experiência em casos de afastamentos do trabalho por CID F ressaltou a enorme importância da atuação qualificada de psicólogos do trabalho, tanto para acolherem as demandas emocionais dos trabalhadores, bem como na condução de uma avaliação psicológica para perícias judiciais no âmbito da Justiça do Trabalho. Salienta que a Justiça do Trabalho aos poucos vem reconhecendo este campo de atuação para a Psicologia do Trabalho mas que a quantidade de profissionais aptos não acompanha na mesma proporção. Observa que são profissionais bem vindos na atuação com o Direito Previdenciário e Trabalhista. O prof. Dr. Bruno Chapadeiro trouxe suas observações após doutorado sanduíche na École des Hautes Études en Science Sociales da Universidade de Sorbonne/Paris e UNICAMP. Muitas diferenças das leis trabalhistas foram observadas, no entanto, o reconhecimento de nexo causal do acidente de trabalho e a forma como se conduz uma perícia na França difere bastante com a realidade do Brasil. Tal diferenciação mostra que, no Brasil, corre-se mais riscos de vivenciar injustiças no ato pericial, uma vez que o perito designado raramente é capacitado para lidar com transtornos mentais e muitos relatam haver programa de premiação para peritos que retornarem trabalhadores ao trabalho mesmo não havendo condições biopsicosociais para tal. Encerrou sua fala alertando para importância de se ter acesso a dados estatísticos sobre o assunto, como o AEPS (Anuário Estatístico da Previdência Social), e os desdobramentos trágicos após INSS fazer uma varredura nos benefícios concedidos a trabalhadores acidentados. Infelizmente, muitos foram obrigados a retornarem ao trabalho de forma arbitrária e antiética. O evento encerrou 40 minutos após o previsto devido a constantes perguntas dos ali presentes. "Isto reforça o fato de que é um assunto que não se esgota e que gera muito debate entre trabalhadores e profissionais de gestão de pessoas. Por isso, avalio como muito positiva a ocorrência deste evento e com profissionais de notório saber de outros estados. Ainda, atingimos o objetivo de falarmos sobre o assunto de forma cada vez mais profissional e ainda promover os encontros de profissionais que buscam em seus setores formas de aprimorar suas intervenções".

 

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