CRP 01/DF Entrevista: Michelle Rios fala sobre Psicologia do Esporte

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Em mês de copa do mundo, o CRP 01/DF destaca a importância de a Psicologia estar presente no esporte

A Copa do Mundo Fifa 2018 começou e o futebol é o mais comentado esporte do momento no Brasil, conhecido até como país do futebol. A Psicologia também está inserida neste contexto, já que a saúde mental dos jogadores e do corpo técnico está diretamente ligada ao desempenho deles e, consequentemente, aos resultados.

Para aprofundar o assunto e esclarecer a importância e a dinâmica da Psicologia do Esporte no contexto do futebol, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal conversou com a psicóloga do esporte Michelle Rios, que há dez anos trabalha na área. Há seis, Michelle coordena o Departamento de Psicologia do Esporte do Clube Atlético Mineiro, tradicional clube de futebol do estado de Minas Gerais. Atualmente, ela atende ao todo seis categorias de base: um total de aproximadamente 200 atletas.

Confira a entrevista:

 

1 – Quais são os fatores psicológicos que mais costumam influenciar o estado emocional dos jogadores? Como isso ocorre?

Michelle Rios: Dependendo da idade e nível maturacional, a necessidade de demanda varia. Com atletas mais novos, o fator psicológico que mais costuma influenciar o estado emocional no campo é a ansiedade. Já externamente, o que mais influencia atletas mais novos seria a saudade da família e a pressão. Com atletas mais velhos, o fator psicológico que mais influencia é o controle da agressividade e fatores externos como contrato, família e amigos.

Sabendo dessas necessidades, eu realizo um treinamento mental sobre cada habilidade mental. Por exemplo, faço uma psico-educação sobre a Habilidade Mental Básica: Ansiedade (conceito, sintomas, consequências no campo, vídeos etc.) e treino mentalmente os atletas com técnicas de respiração para que eles possam se controlar emocionalmente.

 

2 – De que maneira o estado psicológico do jogador influencia o físico e, consequentemente os resultados?

Michelle Rios: Por exemplo, o atleta ansioso geralmente não dorme bem e nem se alimenta bem antes de uma partida decisiva. Consequentemente, não se recupera bem fisicamente e nem mentalmente. Se o atleta está ansioso e não sabe controlar seus pensamentos disfuncionais, ele tomará decisões precipitadas e impulsivas dentro do campo. Além disso, o foco de atenção diminui e o gesto técnico fica menos fluido, o que pode causar inclusive lesões.

 

3 – No futebol, em quais casos é indicado o acompanhamento psicológico para jogadores e corpo técnico?

Michelle Rios: Casos que demonstrem um desequilíbrio emocional na relação com ele mesmo, com o grupo, com colegas e com o corpo técnico.

 

4 – Qual é o papel da(o) psicóloga(o) esportiva(o) num grande torneio, como é o caso da Copa do Mundo? Como é o trabalho deste profissional?

Michelle Rios: Ao meu ver, o papel principal do Psicólogo Esportivo em uma Copa do Mundo é certificar o alto rendimento mental dos atletas e do corpo técnico. Garantir o acompanhamento diário em treinos, jogos e refeições, ministrar palestras no dia a dia, se fazer presente e pronto para intervir a qualquer momento seja, em qualquer necessidade que possa ocorrer.

Pensando no trabalho do Psicólogo em uma Copa do Mundo, o ideal seria uma atuação a longo prazo, juntamente com a preparação técnica, tática, física, e não somente dos meses da competição.

Na competição, o psicólogo, ou o time de psicólogos, deve fazer uma anamnese psicológica com os atletas convocados, escolher testes, inventários etc., com o intuito de traçar as necessidades psicológicas individuais e grupais da equipe.

Com estas informações em mãos, o psicólogo traça planos de intervenção diário ou semanal de acordo com a periodização técnica, tática e física. Lembrando que todo o planejamento e todas as atividades devem ser pensadas juntamente com a comissão técnica, a fim de alinhar as necessidades do corpo técnico com as demandas mentais dos jogadores.

Feita a análise das necessidades, palestras e treinamentos mentais devem ser desenvolvidos com base nas habilidades mentais básicas, competitivas, pré-competitivas, grupais e facilitadoras.

Durante o jogo e após o jogo, o psicólogo analisa comportamentos funcionais ou disfuncionais por meio dos vídeos e juntamente com a equipe técnica deve pensar em intervenções pontuais.

 

5 – Por que a maioria dos clubes brasileiros de futebol só possuem profissionais de psicologia nas categorias de base? Não seriam os jogadores profissionais mais expostos a pressões e outros fatores psicológicos que influenciam, tanto nos resultados dos jogos, quanto no futuro desses indivíduos?

Michelle Rios: Porque as categorias de base são obrigadas a oferecer apoio psicológico de acordo com a Lei Pelé (Lei 9.615/1998). Esta trata de normas gerais sobre desportos e obriga que os clubes garantam assistência psicológica a atletas em formação. Já o time profissional não é obrigado a oferecer atendimento psicológico aos atletas profissionais. Sendo assim, a maioria dos clubes de futebol profissional prefere indicar profissionais terceirizados aos atletas.

É imensamente necessário o apoio psicológico no time profissional. Por diversas vezes atendo atletas profissionais na sala da Psicologia, ou por demanda deles ou por demanda do nutricionista, fisioterapeuta etc.

Existe um projeto de Lei que vem sendo votado no Senado, o PLS 13/2012 que pretende obrigar o cuidado com a saúde mental dos atletas profissionais, por meio de apoio de psicólogos.

 

6 – Como é a formação em Psicologia Esportiva? Qual é sua avaliação em relação à qualidade da capacitação desses profissionais oferecida hoje no Brasil?

Michelle Rios: A Formação em Psicologia do Esporte no Brasil tem varias falhas.

Primeira falha: são poucos os cursos de Psicologia no Brasil com disciplina sobre Psicologia do Esporte.

Segunda falha: os cursos de formação em Psicologia do Esporte são, na sua maioria, em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Terceira falha: esta ciência é pouco conhecida pelas pessoas.

Resumindo: se você quer ter formação ou especialização na área, você precisa correr atrás de cursos no Rio ou em São Paulo. A sorte é que hoje temos excelentes profissionais disponibilizando cursos online e facilitando o acesso ao conhecimento.

Neste ano estou lançando um curso intitulado: Treinamento Esportivo e Mental, em Belo Horizonte – MG.

 

7 – Compartilhe conosco como é sua experiência no futebol, na qual sua atuação como psicóloga (o) esportiva(o) é indispensável:

Michelle Rios: Varias são as experiências positivas da minha atuação na Psicologia do Esporte do CAM nesses seis anos. Venho recebendo elogios e comentários positivos dos treinamentos mentais em cada categoria. O meu trabalho é preventivo e não ‘apagador de incêndios’. Cada semana tenho uma hora de atividade com cada categoria e ministro palestras, aplico questionários/testes/inventários, realizo dinâmicas de grupo… tudo isso planejado dentro das periodizações de treino e jogo, com temas diversos, escolhidos de acordo com a necessidade da idade, periodização, campeonatos e grupo.