No Dia Internacional da Mulher, o CRP 01/DF entrevista duas psicólogas que atuam em políticas de combate à violência contra as mulheres

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“É preciso defender as mulheres inclusive, para que os homens sejam libertados do peso de oprimi-las”. Simone de Beauvoir

 

No dia 8 de março é celebrado mundialmente o Dia Internacional da Mulher. O Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal acredita que deve ser um momento de intensa reflexão para sua valorização. Por ser uma carreira composta majoritariamente por mulheres, essa data representa uma oportunidade para intensificar a luta pela garantia dos direitos e bem estar das mulheres. Psicólogas e psicólogos estão atuando nas políticas públicas em diferentes serviços oferecidos pela saúde, educação, justiça, segurança pública, assistência social, secretaria da mulher, entre outros, buscando melhorias na qualidade de vida de mulheres em diversos contextos.

Para a psicóloga Sueley da Cunha Freitas, a violência contra a mulher é uma questão de saúde. Psicóloga há 17 anos, pós-graduanda em Terapia Analítico-comportamental Infantil e servidora da Secretaria de Estado de Saúde do DF, ela já executou diversos trabalhos de atendimento às crianças, adolescentes e familiares, além de projetos de educação continuada, prevenção aos abusos sexuais, atenção integral e outras ações preventivas e educativas na área. Ela destaca que os tipos de violência mais notificados na saúde no DF são as violências físicas, seguidas das sexuais e psicológicas e que os homens são predominantemente os principais ofensores. “Os dados do DF, no último Boletim Epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde – SES/DF (de janeiro a novembro de 2017), mostram que mais de 75% das notificações de violência foram contra as mulheres em seus diferentes ciclos de vida. Foram identificados três vezes mais casos de violência interpessoal contra as mulheres que contra as pessoas do sexo masculino”, relata Sueley.

Gabriela Costa dos Santos, também psicóloga, atuou no Projeto Disque 180 – central que recebe denúncias sobre violência sofrida por mulheres- da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres – SPM. Especialista em Gestão de Pessoas e Recursos Humanos e cursando especialização em Psicopedagogia Clinica e Empresarial, conta que várias mulheres veem a Central como uma rede social de apoio, o lugar onde não são julgadas, mas acolhidas pela sua dor, o primeiro passo em busca de sair das violências sofridas.

A violência contra as mulheres, nas suas diferentes formas, perpassa todos esses serviços, por isso, é tão atual e oportuno este debate. Visando partilhar as experiências de profissionais de psicologia que atuam em diversos serviços destinados às mulheres, o CRP 01/DF ENTREVISTA  conversou com as duas profissionais sobre diversas questões a respeito de violências contra mulheres, sobretudo a violência psicológica. Importante frisar que dentre as consequências da violência para as saúde mental das mulheres temos: depressão, ansiedade, angústia, baixa autoestima, irritabilidade, sentimentos de incapacidade e culpa, perda de memória, abuso de álcool e drogas, diagnóstico de pânico, diagnóstico de fobias, comportamentos destrutivos, podendo chegar, inclusive, às tentativas de autoextermínio.

Confira a entrevista:

 

1) Como você enxerga o atual cenário de violência contra a mulher no DF?

Gabriela: O cenário atual de violência contra a mulher, como sabemos, não é recente na história da humanidade e pode ter agravantes, dependendo da cultura em que está inserida. Infelizmente as pesquisas indicam que, mesmo que as diversas formas de violência contra a mulher estejam sendo mais abordadas, muitas destas mulheres ainda preferem silenciar sua dor. Uma a cada três mulheres no DF já foram expostas a algum tipo de violência.

Apesar dos altos índices de violência contra a mulher registrados no DF e em todo o mundo, e dos avanços sociais, políticos e jurídicos no combate à violência, defendo a ideia de que ainda há muito a se fazer. Precisamos tentar compreender os sentimentos e a ressignificação do ato violento, tanto por parte de quem pratica, para tentar evitar a reincidência, como por parte da vítima, de primeiro e segundo grau.

Sueley: Os dados que tenho são referentes à rede de Saúde do DF, assim, contextualizo o entendimento das violências como uma questão de saúde. No Distrito Federal, o atendimento e a vigilância em saúde dos casos de violência têm sido realizados pela rede pública de saúde do DF, pelos Programas de Pesquisa, Assistência e Vigilância à Violência – PAV e esses serviços têm sido considerados referência no atendimento às vítimas de violência sexual no Brasil. Cada PAV tem o nome de uma flor, começou no HMIB com o PAV Violeta, e a Rede se expandiu para 19 PAVs com atendimento especializado às pessoas em situação de violência, sendo dois deles serviços de atendimento ao ofensor sexual (adulto e adolescente). No Gama, temos o PAV Gardênia e em Santa Maria, o PAV Flor do Cerrado.

É importante entender que o fenômeno da violência contra a mulher, muitas vezes tem seu início de ocorrência na infância. Cerca de 47 % dos casos de violência notificados no DF foram contra as mulheres adultas (20 anos em diante), 40% foram violências contra às adolescentes de 10 a 19 anos, e quase 13% são contra crianças do sexo feminino. Estima-se, inclusive, que muitos casos de violência permaneçam invisíveis, pois algumas mulheres se negam a prestar queixa por medo de represálias por seus algozes e tantas outras não chegam ao sistema de saúde pública.

Neste momento tem um papel essencial as Redes de Proteção e Enfrentamento às violências contra as mulheres que têm se fortalecido cada vez mais no DF, sendo compostas por instituições públicas de diferentes áreas de atuação como a Saúde, Assistência Social, o Sistema de Justiça e Organizações Não governamentais. A entrada da mulher em algum serviço que compõe esta Rede pode proporcionar o acesso a outros pontos de atendimento e esta interlocução é um fator a mais para proteção, orientação, acesso e empoderamento das mulheres sobre seus direitos garantidos por Lei.

 

2) Quais são as principais causas de violência contra a mulher e quais os tipos de agressão que podem ocorrer?

Gabriela: A agressão na maior parte das vezes é de um conhecido, seja familiar, companheiro, colega de trabalho, vizinho ou amigo. Infelizmente, muitas mulheres acreditam que devem permanecer em silêncio para evitar que seus familiares e/ou amigos sofram com seu sofrimento ou cometam mais violência ao tentar defendê-las. Outras mulheres, ao sofrerem violência no ambiente de trabalho, se calam por temerem perder seus empregos. Nós mulheres passamos por muita dificuldade para conseguir boas colocações no mercado de trabalho.

As principais causas da violência contra as mulheres são oriundas do viés do agressor: a mulher como propriedade e/ou objeto, por submissão, alcoolismo ou consumo de drogas, baixa autoestima, repetições de comportamentos agressivos vivenciados, abusos sofridos, dentre outros. As agressões foram classificadas pela Lei Maria da Penha como tipos de abuso contra a mulher nas seguintes categorias: violência patrimonial, violência sexual, violência doméstica, violência física, violência moral e violência psicológica.

Sueley: A violência é um fenômeno complexo e multifatorial. Alguns fatores que podem predispor as situações de violência seriam vulnerabilidade social, dependência química, cultura intrafamiliar, transgeracionalidade das violências. Porém, as questões sócio-culturais envolvendo a mulher ainda são determinantes e muitos preceitos precisam ser desconstruídos na sociedade. Um exemplo disto pode ser a forma com que a sociedade ainda vê a mulher como culpada pelas violências sofridas, e isso se reflete na concepção da própria mulher de que “mereceu” a violência, desculpabilizando os verdadeiros ofensores. Além disso, ainda hoje, a mulher é tida como inferior, sendo detentora de menos direitos.

A mulher pode vivenciar todo tipo de violência: física, sexual, psicológica, patrimonial, dentre outras, e as situações devem ser avaliadas como um problema social e jurídico, mas também de saúde visto que as histórias de vida permeadas por violências ocasionam impactos na saúde mental, afetivo-emocional e física que podem ser lesões leves até danos irreversíveis.  A linha histórica de muitas destas mulheres atendidas é marcada por relações abusivas, caracterizadas por dominação física, psicológica e sexual, e, muitas vezes, a fase adulta é vivida repetindo este padrão. Por isto, o olhar para as violências de gênero deve ocorrer desde a infância para que o ciclo de violência seja interrompido de modo a prevenir as reincidências ao longo da vida.

 

3) A violência psicológica também possui uma classificação. Quais são esses subtipos e como eles impactam a vida das vítimas causando danos à saúde mental da mulher?

Gabriela: Conforme o Conselho Nacional de Justiça, a violência psicológica é entendida como qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento, ainda que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

A Organização Mundial da Saúde – OMS define saúde como “o completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de enfermidade”. Desta forma, podemos considerar que a saúde depende de equilíbrio e de bem-estar. Os efeitos da violência psicológica são vastos e sensíveis e podem permanecer durante muito tempo silenciosos, ocasionando exatamente a falta desse equilíbrio, podendo ainda incluir: dificuldade no desenvolvimento da personalidade (no caso das crianças),  falta de esperança, dificuldade em confiar, de criar laços e de construir relações. A pessoa vitimada, consoante à gravidade das agressões emocionais e psicológicas, pode mais tarde passar a ter o papel de agressor em vez do de vítima.

Em conjunto aos sintomas apresentados pelas pessoas que sofrem de violência psicológica refletem muitas vezes, o stress de lidar repetidamente com as agressões verbais, humilhações e isolamento social. Estes sintomas podem potenciar em algumas pessoas o consumo de substâncias e a automedicação, traduzindo-se num consequente aumento de riscos para a saúde. Outra dimensão importante no que se refere às mulheres é o impacto que a violência psicológica pode ter na saúde reprodutiva, direta ou indiretamente, podendo gerar: a gravidez não desejada; o acesso restrito ao planejamento familiar; o recurso a abortos ilegais; as complicações resultantes de gravidez de alto risco com a da falta de assistência médica; as infecções sexualmente transmissíveis; e, é claro, problemas psicológicos, incluindo o medo de contato físico e perda de interesse ou prazer sexual.

Infelizmente, ainda existe um atenuante quando se trata de agressões à mulher. Ainda há nos tempos de hoje abusos maiores referindo-se a mulheres negras, e em casos de mulheres que estão sob cuidados de profissionais de saúde, como nos casos de violência obstétrica e contra idosas que necessitam de cuidadores domésticos para cuidados íntimos de higiene.

Sueley: A violência psicológica pode ser conceituada como “ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa, por meio de intimidação, manipulação, ameaça direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou desenvolvimento pessoal”. É possível perceber que é um conceito amplo que pode representar uma vivência de violência exclusiva, mas também uma comorbidade com outras violências como a física, sexual e negligência, que podem ocorrer em todos os ciclos de vida da mulher.

A violência psicológica pode desencadear sofrimento e prejuízos no desenvolvimento e na saúde mental levando a sintomas de depressão, ansiedade e outros transtornos. Exemplos dessa violência seriam o Bullying e a violência psicológica doméstica evidenciada em relações conjugais abusivas e até mesmo nas relações parentais.

 

4) Qual o papel da Psicologia na luta pelo combate à violência contra a mulher?

Gabriela: A Psicologia luta com o olhar sistêmico e sem julgamento, buscando identificar os símbolos das ações cometidas e fazendo com que os envolvidos busquem ressignificação, procurando a empatia para a humanidade. Psicólogos buscam acolher agredidos e agressores, analisando o perfil dos envolvidos nos atos violentos, identificando possíveis motivos para a agressão, estimulando que o agressor entenda o real significado do ato cometido, e, principalmente, estimulando que agredidos restabeleçam sua autoestima, entendam que não têm responsabilidade pela agressão e que sempre devem pedir auxílio para denunciar seus agressores.

Sueley: A atuação da Psicologia é fundamental para promover estudos teóricos e experimentais sobre o fenômeno da violência. Tais estudos norteiam as ações dos profissionais que lidam na prática com o atendimento das mulheres e outras pessoas. Além disso, o cuidado com a saúde envolve um conjunto de atitudes e condutas dos profissionais de Psicologia que devem realizar intervenções no âmbito preventivo, com ações de psicoeducação que tenham a finalidade de reduzir as chances de ocorrência das violências, que minimizem a revitimização e com intervenções para acompanhamento integral às pessoas que já vivenciaram as violências prevenindo que os agravos emocionais se instalem ou promovendo cuidado à saúde mental para casos que já apresentam transtornos decorrentes das histórias traumáticas.

O tema da violência deve ser parte integrante dos conteúdos terapêuticos, mesmo no atendimento em consultório particular. Proporcionar um ambiente acolhedor para uma escuta atenta tem um reflexo marcante para aqueles que precisam dizer o que muitas vezes nunca foi dito.

 

5) Como é possível a redução de violência contra as mulheres?

Gabriela: Depende basicamente do respeito ao próximo, pois não existem diferenças entre os gêneros. Esse respeito deve ser cobrado dos pais ao educar seus filhos, dos educadores no ambiente escolar, e de toda a sociedade. É importante entender que a omissão ao presenciar uma violência contra a mulher, independentemente do contexto em que o ato for cometido, é um incentivo à agressão.

Sueley: A vigilância, a prevenção, a promoção da saúde e da cultura de paz são fundamentais para o enfretamento da violência contra a mulher e precisam ser pauta para que sejam rompidos os mitos e tabus que ainda envolvem o tema. Muito se avançou nos últimos anos, as violências saíram do âmbito privado para o status de vigilância pública. A sociedade está mais atenta a estas situações, a temática chegou aos noticiários, às vezes de modo sensacionalista, mas também de modo a promover debates e informações, esse tema está nas rodas de conversa, nas igrejas, escolas e ambientes acessíveis à comunidade. Acredito que essas pequenas mudanças podem ter um efeito educativo e transformador, principalmente para as próximas gerações de mulheres, que estarão mais empoderadas e alcançando os homens desde sua formação na infância.

Os serviços públicos também contribuem com estas ações.  Nos PAVs, costumamos dizer que “ninguém trabalha as violências sozinho”, as parcerias com a Rede também são essenciais, tanto envolvendo os serviços de saúde nos diferentes níveis de atenção como atendimento na atenção primária de saúde até os serviços especializados como os PAVs e a Saúde Mental, como a interlocução com os sistemas de Educação, Assistência Social, Segurança e o Judiciário.

 

6) Como a mulher pode perceber que está sendo vítima de violência? O que ela deve fazer para minimizar os danos quando percebe que está sendo agredida?

Gabriela: A mulher está sendo submetida à agressão quando: sofre isolamento social; torna-se agressiva ou apática; não cuida de sua aparência física; está com baixa autoestima; não se vê em outra relação e tem esta afirmação por parte do(a) companheiro(a); é submetida a vigilância constante de seu(sua) companheiro(a); é desrespeitada em público; é ridicularizada por sua aparência física ou por sua capacidade intelectual; sustenta uma relação pelos filhos ou por dependência financeira; tem relações sexuais por obrigação ou sem prazer, dentre outras. Para minimizar os danos, a mulher pode procurar redes de apoio governamentais à mulher – assistência jurídica, psicológica e social-  ou pedir ajuda em sua rede social (familiares e amigos).

Sueley: Essa é uma questão complexa, pois a percepção das violências pelo sujeito que as vivencia é subjetiva, tem aspectos relativos que interferem e podem levar mulher a minimizar as situações de violência doméstica, psicológica ou sexual. Tais fatores podem ser a transgeracionalidade das violências, história anterior de violências, além de questões culturais, sociais e religiosas. Ao conseguir perceber as agressões a mulher deve procurar ajuda imediatamente, porque a violência é um fenômeno complexo e que não se enfrenta sozinho. Buscar apoio familiar e social, além de suporte institucional, é essencial para a superação. Como nesses casos a Rede de Proteção e Enfrentamento às violências no DF tem se mostrado efetiva, espera-se que qualquer ponto de atenção possa ajudar a mulher a acessar os serviços públicos. Em casos de Violência Sexual, a orientação para as mulheres é procurar a emergência ginecológica do Hospital Público mais próximo em até 72 horas após o evento para receberem o tratamento profilático emergencial que previne os agravos à saúde física da mulher e a gravidez decorrente da violência.

 

 

7) De que forma o seu trabalho colabora para minimizar o sofrimento de mulheres que foram vítimas de violência? Conte um pouco da sua experiência e sobre como é para você, enquanto mulher, trabalhar nesse contexto.

Gabriela: A Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Disque 180 é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres da Presidência da República – SPM, desde 2005. A Central tem por objetivo receber denúncias de violência contra mulher, reclamações e direcionamento sobre os serviços da rede de atendimento à mulher e de orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as a outros serviços, quando necessário. Funciona 24hs, todos os dias da semana, incluído os finais de semana e feriados. Pode ser acionado por todo território brasileiro e mais 16 países (Argentina, Bélgica, Espanha, EUA, França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela). A Central é a porta principal de acesso aos serviços que integram a Rede Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha, e base de dados privilegiada para a formulação das políticas do governo federal nessa área.

Na Central atuei fornecendo apoio psicológico em grupo, individualmente e com ações motivacionais. Imagine-se escutando seis horas por dia tudo aquilo que é silenciado pela sociedade, todas as atrocidades. Muitas vezes, estava atendendo alguém por telefone e percebia que o agressor havia chegado e que a denunciante parava de falar por estar sendo agredida naquele momento, mesmo comigo do outro lado da linha, escutando tudo. Outras vezes, recebia ligações de crianças escondidas, pedindo ajuda porque os pais estavam se agredindo. Atendia também casos de ideação suicida, pessoas que depois de anos silenciadas identificaram que tinham sido abusadas por um parente há anos atrás e queriam apenas desabafar, por não ter se sensibilizado com seu falecimento. Casos assim são escutados a todo o momento.

Ainda existem os trotes, em alguns casos as atendentes acabam sofrendo agressões verbais, xingamentos ou assédio sexual por homens que desqualificam o trabalho prestado às mulheres.

As atendentes que atuam na central são verdadeiras agentes contra a violência, pois escutam essas vítimas, auxiliam e dão voz a quem não tem. É trabalhado o psicossocial destas profissionais, para que as mesmas não tomem para si a dor do outro e para que elas compreendam que somente olhando o contexto de fora podemos de fato auxiliar melhor. Acredito que seja pertinente afirmar que as atendentes não julgam ninguém, nem induzem a denúncia ou a busca pelas assistências governamentais e, sim, expõem as possibilidades de resolução para que a vítima tome a atitude que melhor lhe convier.

Sueley: Os PAVs da Região de Saúde Sul atuam na perspectiva do atendimento multiprofissional. Nossas equipes são compostas por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem e um médico. Nelas, cada profissional contribui para os atendimentos de acordo com sua formação. Recebemos as demandas espontâneas, ou seja, o próprio usuário pode procurar um dos PAVs, ou casos encaminhados por outras Unidades de saúde e pela Rede Intersetorial (Conselho Tutelar, CRAS, CREAS, Sistema judiciário, Segurança Pública e outros). Os profissionais dos PAVs fazem um Acolhimento inicial, que tem por finalidade entender as demandas e identificar as violências trazidas pelos usuários do serviço e proceder os encaminhamentos pertinentes.

Nos casos em que as mulheres sofreram violência sexual, a orientação é de que procurem o PAV de referência, onde será feito acolhimento e acompanhamento prioritário pela equipe de enfermagem. O segmento com psicólogo e assistente social é realizado individualmente e o tempo de permanência no serviço varia de acordo com a adesão do paciente e a intensidade dos agravos emocionais identificados na avaliação. Visto que o fenômeno da violência contra a mulher muitas vezes tem seu início de ocorrência na infância, os PAVs têm priorizado o atendimento das crianças e adolescentes. Ambos os PAVs promovem intervenções em grupo com crianças e adolescentes em situação de violência sexual, nos quais os responsáveis também são inseridos, sendo trabalhados aspectos das violências atuais e transgeracionais. Entendemos que desta forma é possível um resgate das relações familiares e afetivas que podem favorecer o rompimento do ciclo da violência.

Atuei como psicóloga na assistência do PAV Gardênia do Hospital do Gama desde 2011 até julho de 2017. Até então, o serviço não tinha profissional de Psicologia, mas, em parceria com uma assistente social, iniciamos os atendimentos psicossociais individuais e posteriormente grupos de crianças e adolescentes. Foi desafiador, enfrentamos limitações estruturais como espaço físico, falta de materiais lúdicos e equipe reduzida. Olhar para trás e lembrar como era e como o serviço está estruturado hoje se torna gratificante saber que fiz parte desta história. Atualmente, estou como Chefe do NUPAV – Núcleo de Prevenção e Assistência a Situações de Violência na Região de Saúde Sul, que coordena os serviços de atendimentos às pessoas em situação de Violência dos Hospitais Regionais do Gama e Santa Maria, ou seja, o PAV Gardênia/HRG e o PAV Flor do Cerrado/HRSM. Esse é meu novo desafio profissional.