20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra: Entrevista com a psicóloga Ana Luísa Coelho

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Neste 20 de novembro é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, data escolhida em alusão à morte de Zumbi dos Palmares, líder de um dos mais importantes quilombos do período colonial brasileiro. Em referência à data, convidamos a psicóloga e membra da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) – ANPSINEP, Ana Luísa Coelho, para compartilhar suas reflexões sobre Psicologia e relações étnico-raciais. Ana Luísa é mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, especialista em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça e analista técnica de Políticas Sociais.

“Psicólogas e psicólogos precisam urgentemente enfrentar o debate do racismo, iniciando através de uma escuta interior que antecede a qualquer prática externa. Só conseguimos enfrentar algo a partir do momento em que o reconhecemos e este se torna real.

Ouvi há muitos anos uma frase que sempre guardo comigo: “A Psicologia é o exercício da palavra e da escuta que tem por objetivo transformar a gravidade em leveza!” Esta leveza tem que começar de dentro, eliminando as construções racistas e discriminatórias que temos dentro de nós e oxigenando as reconstruções possíveis que começam a emergir. Precisamos colorir a Psicologia: nos debates, nas teorias, na representatividade, no afeto e no respeito. Viva Zumbi dos Palmares! Viva Dandara!”

Ana Luísa Coelho, psicóloga

Ouvimos falar muito recentemente no Brasil sobre a articulação de psicólogas e psicólogos que buscam entender o impacto das relações étnico-raciais sobre as subjetividades e o sofrimento psíquico de grupos e indivíduos. Como tem sido a relação da Psicologia com essa temática ao longo da história da ciência e o que pode ter provocado os profissionais e estudiosos a se debruçarem sobre o tema?

A nossa cultura patriarcal, misógina e racista interroga, constantemente, a nós, psicólogas e psicólogos, diante dos inúmeros desafios frente às dimensões da escuta que conferem o nosso fazer profissional. O racismo é um constructo social fruto de um imaginário determinante que hierarquiza os seres humanos de acordo com a cor da pele e o pertencimento racial, onde os negros ocupam na escala discriminatória elevado grau de inferioridade e de menos valia atribuído pela sociedade.

A Psicologia, assim como outras ciências que se constituíram a partir de fortes raízes advindas da colonialidade – nas quais o lócus de valorização epistêmica está ancorado no eurocentrismo – compactua com a invisibilidade do racismo nas relações sociais brasileiras e se sustenta na tônica do mito da democracia racial, que estabelece a pseudo-crença de harmonização entre as diferentes raças no país. Isso dificulta o reconhecimento das pessoas como reprodutoras do racismo, uma vez que está arraigado na sociedade e, geralmente, aparece de forma naturalizada e considerado como “brincadeiras”, “apelidos”, piadas etc.

Há vários estudos sobre a percepção da existência do racismo no país que chegam a um mesmo resultado: a grande maioria das pessoas reconhece a existência do racismo no Brasil, entretanto o mesmo contingente expressivo alega não ter preconceito racial. Daí percebe-se que a “matemática” não fecha, e é possível constatar, como aponta Lilia Schwarcz, que “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial cercada de racismo por todos os lados”.

Nesse sentido, o racismo não é uma prerrogativa exclusiva da Psicologia e sim da maneira como a sociedade se estrutura a partir de determinados padrões de exclusão social, herança escravocrata e classificação de estética e de valores humanos. Entretanto, o compromisso social estabelecido pelos paradigmas da Psicologia como ciência e profissão ainda persiste na premissa de que indivíduos são seres homogêneos, o que implica em pouco adensamento nas especificidades que compõem os sujeitos e suas subjetividades tais como as questões de gênero, identidade de gênero, raça/cor, entre outras.

Algumas psicólogas e psicólogos têm se movimentado para não consentir com esse silenciamento epistêmico, na tentativa de tirar os profissionais da pseudo zona de conforto e alienação diante da temática racial, e provocar o olhar e a escuta qualificada às subjetividades dos negros e negras. Embora haja um grande esforço de um pequeno contingente, ainda são iniciativas pontuais de interesses, sobretudo, de profissionais que também estão imersos na subjetividade de quem carrega consigo a marca da cor da pele negra.

A Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) – ANPSINEP é uma importante iniciativa nacional (com núcleos estaduais, assim como no Distrito Federal do qual eu faço parte) que busca a mudança de paradigmas com o intuito de pautar a Psicologia e as relações raciais como forma de enfrentamento ao racismo na sociedade brasileira e fortalecer o compromisso de mobilizar a categoria e o público em geral na discussão sobre os impactos do racismo na construção da subjetividade e nas relações interpessoais.

É uma semente plantada que, aqui no Distrito Federal, o núcleo existe desde setembro de 2016, isto é, pouco mais de um ano, no entanto tem assumido várias frentes de discussões, reflexões e debates acerca das relações raciais e das subjetividades da psique humana em decorrência do racismo e das distintas formas de opressão.

Podemos perceber que, com o avanço de legislações sobre a temática racial no país, conjugada com a persistente luta do movimento negro em suas diferentes vertentes e a diferença de profissionais da Psicologia e sociedade em geral que trazem à tona a valorização da negritude, a pauta tem sido cada vez mais difundida, fazendo com que a sociedade comece timidamente a ter que se implicar, desmistificando conceitos e preconceitos em relação às questões raciais brasileiras.

Como a discussão que se tem feito acerca do racismo vem sendo cada vez mais recorrente, a Psicologia, partindo do seu compromisso ético e político com o exercício da profissão, não pode mais se eximir ou passar ilesa deste debate tão caro para a sociedade brasileira.

Nos diferentes contextos de atuação da Psicologia, seja na clínica, nos departamentos de RH ou nas políticas públicas, de que forma a falta de domínio do profissional no que tange às relações étnico-raciais pode influenciar no trabalho que é desenvolvido por ele?

Primeiro para falarmos da atuação da(o) profissional de Psicologia é preciso olhar para a formação acadêmica dos estudantes e discutir a composição curricular dos cursos de Psicologia. É possível afirmar que a maioria de nós psicólogas(os) não cursou (e arrisco dizer que ainda hoje é assim) praticamente nenhuma disciplina, ao longo da graduação, que abordasse teorias e práticas com o foco nas relações raciais, no sofrimento psíquico em decorrência do racismo, na saúde mental da população negra, ou até mesmo na utilização de autoria negra de profissionais da área ou correlatos.

Essa ausência de conteúdos formativos reflete diretamente no fazer profissional, que produz um silenciamento ou negação da temática racial. E quando a escuta não está aberta para toda a gama que envolve as demandas dos sujeitos negros, imersos neste nosso sistema racista e patriarcal, pode acarretar em mais uma violência sofrida, minimização ou apartação do que é exposto.

O racismo institucional atribui a grupos raciais um lócus de desvantagem ou desigualdade em decorrência de sua raça, resultando no não acesso a serviços, ou mesmo de forma não qualificada, com falta de atenção, de interesse ou negação do atendimento a essa população.

Toda psicóloga e todo psicólogo que de maneira consciente ou inconsciente, por ação ou omissão, que contribui para a propagação do racismo seja na formação acadêmica, nas políticas públicas, nas empresas ou no manejo da clínica, deve estar ciente da implicação estruturante para a vida dos indivíduos e também (des)encadeamento ético, político, moral e criminal.

Kabengele Munanga, ao refletir sobre o silenciamento em relação às questões raciais no país, afirma que o racismo brasileiro é “um crime perfeito, pois além de matar fisicamente, ele alija, pelo silêncio, a consciência tanto das vítimas quanto da sociedade como um todo”, em outras palavras torna-se algo infalível uma vez que apenas a vítima sabe o que ocorreu, mais ninguém.

Diante do cenário de polarização vivido com mais intensidade no Brasil nos últimos anos, tem sido recorrente a publicação de notícias envolvendo casos de intolerância religiosa a diversos grupos e, com frequência, a seguidores de religiões de matriz africana. Como a Psicologia pode e tem se inserido nesse contexto? É possível uma contribuição mais incisiva no sentido da promoção da diversidade e da garantia de direitos no país?

O enfrentamento ao racismo tem exigido uma série de esforços não só de profissionais da Psicologia, mas também da sociedade como um todo, em virtude da complexidade que o preconceito e a discriminação racial vão se conformando na contemporaneidade.

Nossos corpos negros estão alijados da condição digna de humanidade, juntamente com a nossa cultura, os nossos valores e as nossas crenças. Tudo isso está intrínseco nas relações sociais produzidas e reproduzidas culturalmente que impedem de pensar o outro para além de um olhar acerca de si mesmo.

Até pouco tempo atrás, a prática dos cultos religiosos de matriz africana no Brasil era considerada ilegal. No início do século XX, a mediunidade e o transe eram tidos como distúrbios psiquiátricos associados à esquizofrenia e a sintomas histéricos.  Dessa maneira, o imaginário construído no país sobre as religiões de matriz africana se constituiu por meio de narrativas perversamente associadas a estereótipos negativos de cunho maléfico, insano, nocivo e desvairado.

A Psicologia certamente pode contribuir com a ressignificação da intolerância religiosa, chamando a atenção para a alteridade e como esta se contrapõe aos nossos anseios narcísicos.  Desocultar os preconceitos intrínsecos à nossa construção psíquica é um grande desafio. É buscar compreender a importância da reconstrução de espaços da territorialidade africana, o respeito à ancestralidade negra e às tradições orais, considerando, assim, que existem diferentes manifestações religiosas que se circunscrevem nas construções identitárias dos diversos grupos. Como afirma Maria Lúcia da Silva, é fundamental “ouvir o outro a partir do seu contexto histórico”.