CRP 01/DF entrevista a doutora Valeska Zanello sobre Psicologia e Mulher

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Por ocasião do Mês da Mulher o CRP 01/DF, por meio da sua Comissão Especial da Mulher, inaugura um Projeto denominado “CRP Entrevista”. Em referência ao Mês das Mulheres, inauguramos o projeto com a professora doutora Valeska Zanello. O “CRP Entrevista” trabalha a partir das temáticas em debate nas Comissões Especiais no CRP 01/DF.

É necessário fazermos uma faxina epistemológica na Psicologia, contextualizando historicamente as próprias teorias, contestando certezas tomadas de forma acrítica de um ponto de vista do gênero.”

No mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a doutora em Psicologia Valeska Zanello conversou com o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal sobre a luta de mulheres pela igualdade de gênero. Professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília, Valeska fez um panorama sobre a realidade das mulheres nas diversas áreas de representação, destacando a importância do empoderamento feminino e o papel da Psicologia na desconstrução de paradigmas culturais de violência. Atualmente, a psicóloga coordena o grupo de pesquisa “Saúde mental e Gênero”, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da UnB e de 2014 a 2016 ela foi representante do Conselho Federal de Psicologia no Conselho Nacional de Direitos da Mulher/SPM e no Grupo de Estudos do Aborto (GEA).

Confira o diálogo:

1) Quais são os desafios enfrentados pelas mulheres na atualidade? O que já avançou e o que é necessário evoluir?

Penso que estamos enfrentando no Brasil um momento de visibilização das diversas formas de violências pelas quais as mulheres são atingidas em nossa cultura. E isso, em vários âmbitos: além do psicológico, físico, sexual, o político, o dos direitos reprodutivos, o do mercado de trabalho, o das ciências, o simbólico-representativo, o da mídia, etc. Nos últimos dois anos, os movimentos têm se fortalecido ainda mais e as mulheres têm ganhado força na cena social. Mas muitos avanços ainda são necessários. A começar pela representatividade política. O Brasil é um país profundamente machista e misógino. Se no espaço de poder, onde se fazem as leis, não houver representatividade de mulheres, ficaremos reféns de um poder que se constrói apenas na perspectiva de homens que são, em sua maioria, brancos e heterossexuais. A transformação precisa vir em múltiplas esferas e em várias frentes. No caso da Psicologia, acredito que fizemos alguns avanços nesses últimos dois anos. O primeiro deles foi a posição favorável (oficial) do Conselho Federal de Psicologia em relação à descriminalização do aborto em nosso país, até a 12ª semana de gestação e independentemente das razões da mulher. Além disso, foi publicado um livro (ebook[1]) sobre o tema “Aborto e (não) desejo de maternidades”, coletânea que contou com a participação de profissionais renomados de várias áreas, debatendo sobre o assunto. O segundo ponto foi a nota técnica sobre quebra de sigilo em casos de sério risco de feminicídio[2]. Isso foi resultado de uma discussão junto ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e outros conselhos federais (medicina, enfermagem, serviço social, etc), a qual durou um ano. A psicologia foi a primeira a aprovar essas diretrizes e a destacar a importância da participação dos profissionais pelo fim da violência contra a mulher em nosso país. Além disso, houve o lançamento de dois vídeos: 1) “Violência contra a mulher: o que os profissionais de saúde têm a ver com isso?”[3] e 2) “Notificação compulsória e comunicação externa em casos de violência contra a mulher”[4]. Penso que precisamos avançar mais nas discussões teóricas sobre gênero em nossos cursos de graduação (a meu ver, deveria ser uma disciplina obrigatória), bem como desafiar teorias tradicionais estabelecidas que naturalizam, ainda, uma inferiorização das mulheres, bem como papéis de gênero bastante engessados.

2) Qual é a situação do Distrito Federal no que se refere a políticas para mulheres e a aceitação/visibilidade de projetos, movimentos sociais e demais atos em prol da mulher?

O DF é um polo importante no Brasil em termos de pesquisas sobre mulheres, em uma perspectiva feminista de gênero. No ano passado, realizamos a terceira edição do Colóquio de Estudos Feministas e de Gênero, a qual reuniu uma média de 450 doutores, mestres, especialistas, participantes de movimentos sociais de todo o Brasil, para debater o problema da violência contra a mulher em suas múltiplas faces. Além disso, a Universidade de Brasília foi a primeira a realizar uma audiência pública junto com o Ministério Público do DFT para receber e apurar denúncias sobre assédio sexual e outras violências de gênero nas universidades públicas e privadas daqui. Também tem se destacado na educação, em trabalho de prevenção, através da discussão do gênero nas escolas. Aqui podemos citar o Projeto de Lei (aprovado) nesse março/2017 e que torna obrigatório que todas as escolas públicas do DF combatam o machismo através de projetos/intervenções nas escolas. E também, podemos mencionar o projeto Maria da Penha vai à Escola, do qual com toda a alegria, participo. Trata-se de um projeto de formação do corpo de gestores, diretores e professores sobre gênero, violência de gênero e a Lei Maria da Penha nas escolas públicas. Essa é uma iniciativa encabeçada pelo Centro Judiciário da Mulher/TJDFT, cujo livro (material didático) será lançado no dia 30/03. Preciso destacar também o trabalho dos movimentos sociais, do Cefêmea, e coletivos de jovens que têm cada vez mais se empoderado e trazido mais mulheres para o desenvolvimento de uma consciência de gênero.

3) De que forma a Psicologia se insere no contexto de defesa dos direitos da mulher? Quais são as responsabilidades das(os) psicólogas(os) em relação à luta das mulheres?

A Psicologia tem um papel fundamental, pois, historicamente, ajudou a naturalizar vários papéis sociais que engessam subjetivamente as mulheres na atualidade. Um deles é a naturalização do sentimento materno e a culpabilização das mães pelas psicopatologias ou dificuldades dos filhos. É necessário então fazermos uma faxina epistemológica na Psicologia, contextualizando historicamente as próprias teorias, contestando certezas tomadas de forma acrítica de um ponto de vista do gênero. E, também, penso que a psicologia precisa fazer mais pesquisas sob essa perspectiva: para entender não apenas como o gênero participa e é configurado nos processos de subjetivação, mas que intervenções podem ser feitas no sentido de trazer mudanças e aberturas, quando o gênero é fator de sofrimento psíquico.

4) Qual é a importância de se envolver o homem na luta pela desconstrução da cultura machista em nossa sociedade? De que maneira isso pode ser feito?

Gênero é um conceito relacional. Portanto, de um lado, devemos pensar em intervenções que empoderem as mulheres, trazendo outras possibilidades para além do dispositivo amoroso e materno (ver vídeos Orientapsi “Saúde mental e Gênero”, do Conselho Federal de Psicologia[5]). Por outro lado, é necessário desconstruir a masculinidade hegemônica, abrindo outras perspectivas de masculinidades, não pautadas apenas na virilidade sexual e laborativa. Penso que para isso necessitamos de intervenções em várias esferas, a começar nas escolas. No caso da Psicologia, os grupos de/para homens também podem ser um importante vetor nesse sentido.

5) O que é de fato o tão falado empoderamento feminino? Qual a importância deste empoderamento para as mulheres e para a humanidade?

Essa pergunta daria um tratado (risos). Há muitas discussões sobre o termo “empoderamento” e às ideias a que ele remete. A meu ver, se trata mais de criar fissuras nos dispositivos pelos quais as mulheres hegemonicamente se subjetivam, sendo o amoroso, o de maior impacto , visto que é o principal fator de desempoderamento delas. Dito de forma sucinta (estou escrevendo um livro sobre isso), como exemplo: em nossa cultura os homens aprendem a amar muitas coisas, e as mulheres aprendem a amar, sobretudo, os homens. A forma de amar interpelada nas mulheres é extremamente adoecedora, pois passa por uma carência a ser que erige no homem um lugar de pleno poder. Muitas mulheres se casam com o casamento e a solidão ainda é vivenciada como “estar encalhada”, “não ter sido escolhida”. Os filmes, os desenhos, as músicas ensinam o tempo todo para as meninas que a coisa mais importante na vida de uma mulher é conquistar um homem, fazendo dele o núcleo de sua existência. Como criar fissuras nesses mecanismos de repetição, microfísica de poder? Como criar alternativas de “vir a ser”, na qual a realização possa ser pautada em outros termos e alegrias? Como criar outras pedagogias afetivas? Para mim, o empoderamento passa por essa esfera. Mais do que apontar o que deve ser, trata-se de desconstruir o que não está bom, o que tem gerado sofrimento por tantas gerações. Depois da desconstrução virão, claro, as reinvenções, talvez marcadas por multiplicidades e abertura.

Confira o TEDx “Por que xingamos homens e mulheres de formas diferentes?”, gravado pela professora Valeska Zanello: https://www.youtube.com/watch?v=6kCoRgdeNNc.

[1] http://site.cfp.org.br/aborto-e-maternidade-sao-tema-de-novo-livro-do-cfp/

[2] http://site.cfp.org.br/documentos/nota-tecnica-de-orientacao-profissional-em-casos-de-violencia-contra-a-mulher-casos-para-a-quebra-do-sigilo-profissional/

[3] https://www.youtube.com/watch?v=084Z58rI8rE

[4] https://www.youtube.com/watch?v=6r3_uaUh59Q&t=214s

[5] Vídeo 1: https://www.youtube.com/watch?v=6FJITLhet_U&t=108s;

Vídeo 2: https://www.youtube.com/watch?v=nSTTP7ftzKc&t=2s

Vídeo 3: https://www.youtube.com/watch?v=Btt3ufc0qeA&t=4s