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CRP 01/DF ENTREVISTA: psicóloga Juciléia Rezende Souza

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Em referência ao Dia Mundial de Combate ao Câncer (8), a presidente da SBPO fala sobre Psico-oncologia

O mês de abril é marcado pelo Dia Mundial de Combate ao Câncer (8). Em vista disso, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal conversou com a psicóloga especialista em oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Juciléia Rezende Souza, que também atua como consultora para organização do serviço de psicologia do Hospital Santa Marta e como presidente da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia (SBPO).

Formada em psicologia há 20 anos, Juciléia atua com psicologia hospitalar e da saúde desde 2001 e com psico-oncologia desde 2005. Ela é especialista em Psico-oncologia, pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e em Preceptoria no Sistema Único de Saúde (SUS), pelo Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa (IEP/HSL).  É mestre e doutora em Psicologia do Desenvolvimento e da Saúde, pela Universidade de Brasília (UnB). Juciléia realizou um estudo sobre avaliação de eficácia terapêutica em Oncologia: Grupo psicoeducacional “Aprendendo a Enfrentar” [http://repositorio.unb.br/handle/10482/4592], além da construção e validação de um instrumento de triagem para pacientes com câncer, o Indicador de Risco Psicológico em Oncologia (IRPO): [http://repositorio.unb.br/handle/10482/16804].

Confira a entrevista:

 

1. Recomenda-se que a assistência em psico-oncologia seja disponibilizada em todas as fases do acompanhamento ao paciente. Quais são essas fases?

As fases do tratamento incluem: o momento do diagnóstico, o início do tratamento, a realização do tratamento, o final do tratamento, o momento da alta para quem terá alta e o retorno a reabilitação física e psicossocial posterior (fase da sobrevida após tratamento); o momento da notícia de que a doença não cedeu aos tratamentos e que este deve continuar; a progressão da doença e indicação de cuidados paliativos; o tratamento paliativo e o processo de finitude.

 

2. Quais os riscos de não haver tratamento psico-oncológico à pessoa portadora de câncer?

Cada fase possui desafios e estressores próprios. O paciente e seus entes queridos, incluindo crianças, precisam lidar com o medo da doença, do sofrimento e da morte; com alterações em suas rotinas de vida e, muitas vezes, perdas financeiras relacionadas; com as alterações e limitações físicas que podem ser desencadeadas pelos tratamentos e pelo adoecimento; com a realização de exames e procedimentos invasivos. Trata-se de um contexto novo e aversivo, frente ao qual alguns possuem condição de enfrentamento adaptativo, mas, segundo dados de serviços ao redor do mundo, incluindo o Brasil, 40% a 50% tendem a desenvolver algum nível maior de sofrimento psicológico (em oncologia nomeia-se esse sofrimento como distress) e/ou transtorno psíquico, sendo os mais incidentes os de: ajustamento, ansiedade, depressivo e estresse pós-traumático. O suicídio nessa população também tem taxa maior do que na população geral, havendo necessidade de avaliar rotineiramente a presença de pensamentos sobre morte e ideação suicida.

Mesmo os que conseguem se adaptar, em alguns momentos do tratamento necessitam de suporte para lidar com aumento no nível de sofrimento e estressores de diferentes ordens. Familiares, incluindo as crianças, podem apresentar sofrimento similar ou mais intenso do que o dos pacientes e também precisam de acompanhamento, sendo importante, ainda, avaliar constantemente o contexto familiar e o funcionamento da rede de suporte social do paciente.

 

3.  Quais são os índices de incidência do câncer e como são mensurados?

Existem diferentes tipos de câncer e para cada um há uma taxa de incidência. Os dados do Brasil são periodicamente revisados pelo INCA e disponibilizados em seu site. Essas estimativas podem ser acessadas em: http://www.inca.gov.br/estimativa/2018/.

Cada tipo de câncer traz demandas específicas. O câncer não é uma doença, esse é o nome dado a centenas de doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células e a capacidade de fazerem metástases. O câncer se comporta de forma diferente em indivíduos mesmo quando o órgão afetado é o mesmo. A experiência de cada pessoa ao longo do adoecimento e tratamento dependerá do estadiamento [extensão da doença e seu impacto no organismo] ao diagnóstico, do órgão afetado, das características biomoelculares das células, da condição física do paciente e, como provado em sequencias de pesquisas, da capacidade de enfrentamento do estresse e da sua rede de suporte social.

 

4. Como homens e mulheres costumam lidar com o câncer e quais as peculiaridades do tratamento psicológico relacionadas ao gênero da(o) paciente?

As mulheres tendem a buscar e aceitar mais o auxílio psicológico do que os homens, mas em geral são as que desenvolvem mais transtornos ou, como defendem alguns pesquisadores, por serem as que mais se expressam emocionalmente, favorecem o diagnóstico. Por esse motivo, deve-se ter uma atenção ao sexo masculino no que tange ao diagnóstico de suas necessidades psicológicas.

Em relação ao suporte social, mulheres tendem a relatar maior insatisfação com o suporte recebido do que homens. Na rede de suporte das mulheres há predominância de familiares e amigos, não a do cônjuge. Na rede de suporte dos homens predomina a presença da companheira. Os profissionais de psicologia devem estar atentos a essa realidade e a outras dificuldades presentes na rede de suporte social, para promoverem a reorganização do apoio fornecido e o aumento no nível de satisfação dos pacientes e seus entes queridos.

Além disso, mulheres ou homens com filhos jovens podem necessitar de ajuda sobre como se comunicar sobre o adoecimento e tratamento com eles, bem como lidar com suas reações. Pessoas jovens tendem a ter mais dificuldade nos dois primeiros anos e a se adaptar melhor ao longo dos anos. Já com idosos ocorre o inverso, tendem a se adaptar melhor no início e a ter maiores dificuldades ao longo do tempo, pois se somam aos desafios impostos pela doença, os inerentes ao envelhecimento.

 

5.   Quais são as atividades de um profissional de Psico-oncologia?

O trabalho do psico-oncologista deve se iniciar desde o momento do diagnóstico, inserindo suporte precoce para favorecer um enfrentamento mais adaptativo. Os guidelines(indico a leitura do disponibilizado pela NCCN) indicam que os pacientes sejam avaliados ao início do tratamento e reavaliados nas diferentes fases para acompanhamento do nível de distress e de suas condições psíquicas. De acordo com o nível de sofrimento, o paciente poderá ser encaminhado precocemente para intervenções psicossociais indicadas de acordo com sua necessidade e de seus entes queridos. São ações/técnicas comuns: psicoeducação em grupo, familiar ou individual; psicoterapia breve e focal, individual ou em grupo; acompanhamento na beira do leito; preparo para procedimentos invasivos; interconsultas e ou consultas conjuntas com equipe multiprofissional (médica e não médica) para desenvolvimento de planos terapêuticos compartilhados; suporte no momento da comunicação de más notícias; uso de técnicas de relaxamento, meditação e mindfulness; arteterapia; musicoterapia; ludoterapia para crianças; treinos em habilidades de enfrentamento; técnicas para manejo de estresse, de sintomas e de dor, adaptadas de acordo com a fase do desenvolvimento.

 

6. E os principais desafios encontrado pelos profissionais dessa área atuação psicológica?

Inicialmente, ele precisa desenvolver habilidades pessoais e profissionais para lidar com o contexto de diagnóstico e tratamento de uma doença ameaçadora da vida, com um universo no qual as demandas psíquicas são diversas e quase sempre urgentes e com o processo de finitude e de luto. Não somos treinados na faculdade para trabalhar nesse cenário nem para atuar em equipe multiprofissional. Os pacientes que irão enfrentar o câncer podem já ter histórico de dificuldades psicológicas ou psiquiátricas anteriores, o que aumenta a demanda por conhecimento. Não se pode conhecer apenas de psico-oncologia, há que se saber como intervir com toda gama de processos psicopatológicos e perfis de personalidade.

Outro desafio é aprender a trabalhar em equipe e ter habilidade para lidar com profissionais que estão acostumados com informações mais objetivas e ainda possuem conhecimento limitado sobre a atuação do psicólogo. Na psico-oncologia, entretanto, tal cenário tem mudado ao longo dos anos a partir da publicação de informações e da participação constante dos psico-oncologistas nas atividades realizadas pelas demais equipes de saúde, apresentando-se, assim, resultados inegáveis sobre o nosso trabalho.

Lidar com o excesso de demandas e com a dificuldade de desenvolver processos assistenciais mais estruturados (por estar sobrecarregado) também é um desafio. Em geral somos em menor número do que o necessário e não existem parâmetros para guiar as contratações. Há até mesmo dificuldade para realizar estudos e publicações científicas atuando com sobrecarga de trabalho. Além disso, a faixa salarial não é unificada para essa área, não existindo parâmetros específicos de vencimentos e carga horária para contratação de psicólogos que atuam na área da saúde.

 

7.   Existe formação específica para psicólogas e psicólogos atuarem na área Psico-oncológica? Como se dá a capacitação desses profissionais?

Embora ainda sejam em menor número do que o necessário, existem formação, cursos de extensão e especialização em psico-oncologia ou psicologia oncológica em vários estados do Brasil, inclusive em modalidade on-line. Pode-se também lançar mão de participação em simpósios e congressos na área de psico-oncologia e oncologia no Brasil e exterior, bem como de cursos de curta duração.

A formação deve ser continuada, pois é uma área na qual constantemente ocorrem mudanças nas formas de diagnóstico e tratamento. Precisamos estar preparados para as demandas que emergem dessas novas modalidades, como por exemplo a organização do suporte para pessoas que realizam aconselhamento genético e os efeitos cognitivos das novas drogas utilizadas (chemobrain).

 

8. Qual é sua avaliação, enquanto presidente da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia e profissional de Psico-oncologia, acerca do cenário atual da Psico-oncologia no Brasil?

Existe a política nacional de oncologia que tenta organizar a assistência pública e a saúde suplementar. No Brasil a região Sudeste possui o maior número de serviços de oncologia e a região norte o menor, o que colabora para a migração entre os estados atrás de acesso ao tratamento. Realizar o tratamento longe de casa é um desafio comum para pessoas da região Norte, Nordeste e interior do Centro-Oeste.

O que temos hoje é uma diferença social considerável em relação ao acesso aos tratamentos, até mesmo em serviços privados, muitas vezes pela falta de liberação de algumas modalidades por parte dos planos de saúde. Nesse cenário, a contratação de psicólogos fica prejudicada, não havendo aporte financeiro nos serviços públicos nem pagamento adequado para essa modalidade de assistência em serviços privados. Nos serviços privados, o psicólogo ainda é remunerado pelo atendimento em ambulatório/consultórios e não há conhecimento ou valorização de outras modalidades de assistência e da complexidade das ações que são realizadas.

 

9. Como a SBPO atua? Qual é a sua função e contribuição no desenvolvimento da Psico-oncologia?

A SBPO não tem papel de legisladora, mas tem atuado de forma a levar conhecimento sobre a psico-oncologia e os resultados de suas ações. Tentamos estar presentes nos principais congressos e fóruns de discussão sobre a temática, para que possamos reafirmar o papel do profissional e seu impacto na qualidade de vida e sobrevida do paciente. Somos o principal meio de comunicação entre os profissionais que atuam com psico-oncologia no Brasil e tentamos fortalecer essa rede de psico-oncolgistas. Para conhecer mais sobre a sociedade, indico um passeio em nosso site: http://sbpo.org.br.

Acompanhe a transmissão ao vivo da etapa norte do Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas

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O Conselho Federal de Psicologia (CFP), em parceria com os CRPs 10 (PA/AP), 20 (AM, AC, RR, RO) e 23 (TO) realizam, nos dias 05 e 06 de abril de 2018, em Belém/PA, a etapa norte do Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas.

O evento é uma organização do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (Crepop) e será sucedido por outras quatro etapas, percorrendo todas as regiões do país, em diálogo com todos os CRPs que compõem o Sistema Conselhos de Psicologia.

Acompanhe a transmissão #AOVIVO em: https://bit.ly/2GGfWVq.

Mais informações sobre o evento em: https://www.facebook.com/events/181225499353226/

 

Valeska Zanello lança seu novo livro no CRP 01/DF

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“Os homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres aprendem a amar os homens”, destaca a psicóloga
Na noite desta quarta-feira (04), a psicóloga e militante feminista Profa. Dra. Valeska Zanello lançou o livro “Saúde mental: gênero e dispositivo”, no auditório do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal, por convite da Comissão Especial das Mulheres (CEM). Na oportunidade, a autora falou sobre pontos importantes abordados na nova obra, como as formas de empoderamento e desempoderamento das mulheres e sobre o dispositivo amoroso, mediado pelo ideal estético, e o dispositivo materno. Em relação aos homens, a autora destaca o dispositivo da eficácia e o adoecimento da masculinidade hegemônica. Ao lado da conselheira coordenadora da CEM, Mariana Pedrosa, Valeska teve a oportunidade de autografar alguns livros e conversar diretamente com os(as) presentes.