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CRP 01/DF Entrevista: Michelle Rios fala sobre Psicologia do Esporte

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Em mês de copa do mundo, o CRP 01/DF destaca a importância de a Psicologia estar presente no esporte

A Copa do Mundo Fifa 2018 começou e o futebol é o mais comentado esporte do momento no Brasil, conhecido até como país do futebol. A Psicologia também está inserida neste contexto, já que a saúde mental dos jogadores e do corpo técnico está diretamente ligada ao desempenho deles e, consequentemente, aos resultados.

Para aprofundar o assunto e esclarecer a importância e a dinâmica da Psicologia do Esporte no contexto do futebol, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal conversou com a psicóloga do esporte Michelle Rios, que há dez anos trabalha na área. Há seis, Michelle coordena o Departamento de Psicologia do Esporte do Clube Atlético Mineiro, tradicional clube de futebol do estado de Minas Gerais. Atualmente, ela atende ao todo seis categorias de base: um total de aproximadamente 200 atletas.

Confira a entrevista:

 

1 – Quais são os fatores psicológicos que mais costumam influenciar o estado emocional dos jogadores? Como isso ocorre?

Michelle Rios: Dependendo da idade e nível maturacional, a necessidade de demanda varia. Com atletas mais novos, o fator psicológico que mais costuma influenciar o estado emocional no campo é a ansiedade. Já externamente, o que mais influencia atletas mais novos seria a saudade da família e a pressão. Com atletas mais velhos, o fator psicológico que mais influencia é o controle da agressividade e fatores externos como contrato, família e amigos.

Sabendo dessas necessidades, eu realizo um treinamento mental sobre cada habilidade mental. Por exemplo, faço uma psico-educação sobre a Habilidade Mental Básica: Ansiedade (conceito, sintomas, consequências no campo, vídeos etc.) e treino mentalmente os atletas com técnicas de respiração para que eles possam se controlar emocionalmente.

 

2 – De que maneira o estado psicológico do jogador influencia o físico e, consequentemente os resultados?

Michelle Rios: Por exemplo, o atleta ansioso geralmente não dorme bem e nem se alimenta bem antes de uma partida decisiva. Consequentemente, não se recupera bem fisicamente e nem mentalmente. Se o atleta está ansioso e não sabe controlar seus pensamentos disfuncionais, ele tomará decisões precipitadas e impulsivas dentro do campo. Além disso, o foco de atenção diminui e o gesto técnico fica menos fluido, o que pode causar inclusive lesões.

 

3 – No futebol, em quais casos é indicado o acompanhamento psicológico para jogadores e corpo técnico?

Michelle Rios: Casos que demonstrem um desequilíbrio emocional na relação com ele mesmo, com o grupo, com colegas e com o corpo técnico.

 

4 – Qual é o papel da(o) psicóloga(o) esportiva(o) num grande torneio, como é o caso da Copa do Mundo? Como é o trabalho deste profissional?

Michelle Rios: Ao meu ver, o papel principal do Psicólogo Esportivo em uma Copa do Mundo é certificar o alto rendimento mental dos atletas e do corpo técnico. Garantir o acompanhamento diário em treinos, jogos e refeições, ministrar palestras no dia a dia, se fazer presente e pronto para intervir a qualquer momento seja, em qualquer necessidade que possa ocorrer.

Pensando no trabalho do Psicólogo em uma Copa do Mundo, o ideal seria uma atuação a longo prazo, juntamente com a preparação técnica, tática, física, e não somente dos meses da competição.

Na competição, o psicólogo, ou o time de psicólogos, deve fazer uma anamnese psicológica com os atletas convocados, escolher testes, inventários etc., com o intuito de traçar as necessidades psicológicas individuais e grupais da equipe.

Com estas informações em mãos, o psicólogo traça planos de intervenção diário ou semanal de acordo com a periodização técnica, tática e física. Lembrando que todo o planejamento e todas as atividades devem ser pensadas juntamente com a comissão técnica, a fim de alinhar as necessidades do corpo técnico com as demandas mentais dos jogadores.

Feita a análise das necessidades, palestras e treinamentos mentais devem ser desenvolvidos com base nas habilidades mentais básicas, competitivas, pré-competitivas, grupais e facilitadoras.

Durante o jogo e após o jogo, o psicólogo analisa comportamentos funcionais ou disfuncionais por meio dos vídeos e juntamente com a equipe técnica deve pensar em intervenções pontuais.

 

5 – Por que a maioria dos clubes brasileiros de futebol só possuem profissionais de psicologia nas categorias de base? Não seriam os jogadores profissionais mais expostos a pressões e outros fatores psicológicos que influenciam, tanto nos resultados dos jogos, quanto no futuro desses indivíduos?

Michelle Rios: Porque as categorias de base são obrigadas a oferecer apoio psicológico de acordo com a Lei Pelé (Lei 9.615/1998). Esta trata de normas gerais sobre desportos e obriga que os clubes garantam assistência psicológica a atletas em formação. Já o time profissional não é obrigado a oferecer atendimento psicológico aos atletas profissionais. Sendo assim, a maioria dos clubes de futebol profissional prefere indicar profissionais terceirizados aos atletas.

É imensamente necessário o apoio psicológico no time profissional. Por diversas vezes atendo atletas profissionais na sala da Psicologia, ou por demanda deles ou por demanda do nutricionista, fisioterapeuta etc.

Existe um projeto de Lei que vem sendo votado no Senado, o PLS 13/2012 que pretende obrigar o cuidado com a saúde mental dos atletas profissionais, por meio de apoio de psicólogos.

 

6 – Como é a formação em Psicologia Esportiva? Qual é sua avaliação em relação à qualidade da capacitação desses profissionais oferecida hoje no Brasil?

Michelle Rios: A Formação em Psicologia do Esporte no Brasil tem varias falhas.

Primeira falha: são poucos os cursos de Psicologia no Brasil com disciplina sobre Psicologia do Esporte.

Segunda falha: os cursos de formação em Psicologia do Esporte são, na sua maioria, em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Terceira falha: esta ciência é pouco conhecida pelas pessoas.

Resumindo: se você quer ter formação ou especialização na área, você precisa correr atrás de cursos no Rio ou em São Paulo. A sorte é que hoje temos excelentes profissionais disponibilizando cursos online e facilitando o acesso ao conhecimento.

Neste ano estou lançando um curso intitulado: Treinamento Esportivo e Mental, em Belo Horizonte – MG.

 

7 – Compartilhe conosco como é sua experiência no futebol, na qual sua atuação como psicóloga (o) esportiva(o) é indispensável:

Michelle Rios: Varias são as experiências positivas da minha atuação na Psicologia do Esporte do CAM nesses seis anos. Venho recebendo elogios e comentários positivos dos treinamentos mentais em cada categoria. O meu trabalho é preventivo e não ‘apagador de incêndios’. Cada semana tenho uma hora de atividade com cada categoria e ministro palestras, aplico questionários/testes/inventários, realizo dinâmicas de grupo… tudo isso planejado dentro das periodizações de treino e jogo, com temas diversos, escolhidos de acordo com a necessidade da idade, periodização, campeonatos e grupo.

Nota do CRP 01/DF sobre processos seletivos para psicólogos e condições de trabalho

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O Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal – CRP 01/DF, no uso de sua competência legal de orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão (Lei Federal nº 5.766/91, art. 9º, alínea “b”), vem a público informar que as pautas da categoria relacionadas aos processos seletivos recentes para psicólogos no Distrito Federal têm sido acompanhadas por esta autarquia, sejam aquelas referentes aos concursos públicos como também aos processos seletivos para contratação, conforme a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

ESCLARECE que os psicólogos não possuem uma entidade sindical que os represente enquanto trabalhadores no Distrito Federal e que tal condição nos fragiliza frente às demandas que são competência dessas entidades, como condições do trabalho, negociações salariais e plano de cargos e salários.

DECLARA que, embora não seja atribuição de uma autarquia, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal compreende que é seu papel atuar em parceria com sindicatos, outros conselhos, fóruns profissionais, movimentos sociais e outras entidades em favor de pautas que construam melhorias para o exercício profissional dos psicólogos bem como o reconhecimento da profissão e, por conta disso, vem empenhando esforços para orientar e auxiliar seus inscritos em alguns de seus pleitos, respeitando seus limites legais.

INFORMA que no dia 10 de abril de 2018, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal encaminhou ofício para Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – EBSERH, solicitando informações sobre os motivos de psicólogos serem enquadrados na classe S-1 do Plano de Cargos, Carreiras e Salários, juntamente com outras carreiras que não são da área fim da EBSERH (Saúde), como pedagogo e tecnólogo, em detrimento de outras carreiras da área de saúde, como Nutrição e Biomedicina, bem como carreiras de área meio, como analista administrativo, que são enquadradas na classe S-2 e têm salário de ingresso maior em cerca de R$ 900,00 (novecentos reais) em relação à classe S-1, sendo que todas essas carreiras exigem formação superior completa. Tendo em vista que a profissão de psicólogo é reconhecida carreira de nível superior da área de saúde e a importância da ação interdisciplinar no âmbito de saúde (Resolução N.º 218/1997 do Conselho Nacional de Saúde) bem como a todo trabalho de igual valor corresponderá salário igual (Art. 5º, da CLT).

Transcorrido dois meses após o envio do ofício, a EBSERH não se manifestou e uma reiteração ao pedido foi realizada. Vale ressaltar que a Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) estabelece o prazo não superior a 20 dias para obter informações de órgãos públicos e que em casos de não ser possível conceder o acesso imediato à informação deve em prazo não superior a 20 dias (Art. 11) II – indicar as razões de fato ou de direito da recusa, total ou parcial, do acesso pretendido ou III – comunicar que não possui a informação, indicar, se for do seu conhecimento, o órgão ou a entidade que a detém, ou, ainda, remeter o requerimento a esse órgão ou entidade, cientificando o interessado da remessa de seu pedido de informação. Novos encaminhamentos serão feitos por este plenário, no caso de ausência de esclarecimentos, como levar ao Ministério Público do Trabalho (MPT) as demandas trabalhistas dos psicólogos da  EBSERH.

Ação semelhante foi realizada esta semana com relação ao processo seletivo do Instituto do Hospital de Base para psicólogos, tendo em vista a diferença salarial para cargos que exigem a formação de ensino superior em saúde. Conforme o edital, psicólogos cumprirão a mesma carga horária de outros profissionais de saúde e receberão um salário inferior em mesmo contexto de trabalho, sendo que no Distrito Federal não há piso salarial para as outras categorias profissionais regulamentadas por lei para justificar essa diferença. O Conselho Regional de Psicologia encaminhou ofício pedindo esclarecimentos sobre as motivações da entidade para a diferença salarial.  Entretanto, a categoria enfrenta a necessidade de um marco regulatório que contemple um piso salarial para os psicólogos no Distrito Federal.

DIVULGA para a categoria que o Senado Federal está com consulta pública aberta sobre o Projeto de Lei nº 511 de 2017, que acrescenta o art. 14-A à Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, para dispor sobre duração da jornada normal semanal de trabalho do psicólogo. Decorrente de ideia legislativa do E-cidadania, determina que a duração do trabalho normal do psicólogo não poderá ser superior a 30 horas semanais na tentativa de buscar isonomia com outros profissionais que atuam na saúde.

O Projeto de Lei teve origem em uma sugestão legislativa proposta por Ramon Duarte da Bahia e, além da jornada de 30 horas, recomendava um piso salarial de R$ 4.800,00, embora esta indicação não tenha sido contemplada pelo PL 511/2017.  Segundo a relatora do Projeto, senadora Regina Sousa (PT-PI) da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participava, as sugestões sobre pisos salariais em âmbito nacional são comuns como proposta para Projeto de Lei e que as comissões costumam vetar esta solicitação tendo em vista as diferentes realidades orçamentárias dos empregadores que contemplam municípios e pequenas empresas, estados e União. Desta forma, a senadora acolheu em parte a sugestão legislativa para transformá-la em Projeto de Lei, pois avalia que cabe aos estados e municípios regular os pisos salariais das categorias profissionais. O Conselho Regional de Psicologia desconhece Projeto de Lei Distrital para fixar o piso salarial do psicólogo no Distrito Federal.

O Conselho Regional de Psicologia encontra-se representado nos Conselho Distrital de Saúde (CDS), Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA), Conselho Distrital da Assistência Social (CAS), Conselho de Política sobre Drogas (Conen/DF). Os conselhos distritais são instâncias deliberativas que orientam e organizam as prioridades em cada uma dessas temáticas no âmbito local, de forma que o CRP 01/DF visa a contribuir e dar visibilidade à percepção da Psicologia sobre os assuntos tratados.

Nesse sentido, o CRP 01/DF convidou, inclusive, aqueles que se dispuseram a pedir inscrição em determinados conselhos distritais onde temos direito a representatividade profissional, conforme seu interesse e competência técnica específica para tais temáticas com o objetivo de acompanhar as decisões que vão impactar nos serviços e rotinas profissionais dos psicólogos.

Além disso, a Comissão de Psicoterapias e Clínica do CRP 01/DF – CPC possui um grupo de trabalho que visa estudar as legislações dos convênios e planos de saúde com o intuito de melhorar as negociações da categoria com essas empresas. O grupo de trabalho é aberto a qualquer profissional inscrito no Conselho que queira contribuir para o avanço dessa pauta.

Acreditamos que apenas com a uma gestão ampliada entre psicólogos conselheiros e inscritos participantes de sua autarquia poderemos fortalecer a Psicologia, a profissão e seus profissionais.

Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal – CRP 01/DF

Leia o ARTIGO do psicólogo esportivo Yghor Gomes

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O Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal lançou neste mês de junho, mês de Copa do Mundo, uma comissão especializada em Psicologia do Esporte, que está presente não só no contexto do futebol, como em todos os esportes. No dia de ontem (14), a Comissão Especial de Psicologia do Esporte do CRP 01/DF teve sua segunda reunião. A Comissão tem por objetivo fortalecer a área de Psicologia do Esporte em quatro dimensões: o esporte como inclusão social; a formação do profissional (tanto na graduação quanto na pós-graduação); o esporte de alto rendimento e o esporte como instrumento de lazer, entretenimento e saúde. Um tema que perpassará todos esses espaços é o atendimento aos paratletas.

Confira a opinião do profissional Yghor Gomes, que atua na área de Psicologia do Esporte:

 

Psicologia do Esporte: em busca da maturidade profissional

A Psicologia do Esporte brasileira ainda busca uma maturidade e uma identidade nacional, contudo já tem uma história, que se confunde com a própria história da Psicologia no Brasil – a partir da resolução CFP nº 014/2000, ela foi reconhecida como uma área de especialidade. O desenvolvimento da Psicologia do Esporte partiu de um olhar muito centrado na avaliação e na construção do uso de técnicas de intervenção para o aumento do desempenho esportivo, visando também o bem-estar pessoal do atleta. Entretanto, a Psicologia do Esporte não se limita a atuar apenas com o esporte de alto rendimento, contribuindo também com as pessoas ou grupos que realizam a atividade física regularmente por lazer ou para competições.

Percebe-se que o profissional da Psicologia do Esporte deve adquirir uma boa formação geral em Psicologia, aliada aos conhecimentos específicos do exercício físico e do esporte. É necessário também para este profissional uma cultura alicerçada em elementos que contribuam para o entendimento do contexto específico da modalidade em que está atuando.

Hoje, no Brasil, contamos com alguns núcleos de formação e de especialização deste tipo de profissional, além das comissões ou grupos de trabalho criados pelos Conselhos Regionais de Psicologia para tratar destas demandas de conhecimento técnico e do campo de atuação profissional. Existem, ainda, as associações que representam os profissionais da área no Brasil, como a Associação Brasileira de Psicologia do Esporte – ABRAPESP (ligada ao Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira – FENPB) e a Associação Brasileira de Estudos em Psicologia do Esporte e do Exercício – ABEPEEX, que servem para difundir o conhecimento teórico e prático a partir de seus congressos e eventos.

Em tempos de grandes eventos esportivos ou denúncias relacionadas ao meio esportivo, somos chamados a responder à sociedade sobre o fazer da Psicologia do Esporte. No entanto, cabe aqui lembrar que o artigo 1º do Código de Ética Profissional do Psicólogo diz em sua alínea “a” que é dever fundamental dos Psicólogos “assumir responsabilidades, profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoalmente e tecnicamente”, pois são nestas situações e no calor do momento acabamos por ocupar um local para o qual muitas vezes não estamos tecnicamente preparados, e ai falamos muito mais do lugar de torcedores/cidadãos que do de psicólogos propriamente ditos. Devemos, portanto, ponderar sempre sobre as especificidades do esporte e sobre o quanto somos afetados por ele, pois o esporte é algo que nos atrai, seja pela beleza ou pela superação de limites: ele é apaixonante.

 

Psicólogo Yghor Queiroz Gomes

 (CRP04/41218)

 

Yghor Queiroz Gomes é especialista em Psicologia do Esporte, psicólogo da equipe de arbitragem da Federação de Futebol do Distrito Federal e da AEDEC-Brasil (time basquete sub20 e projetos sociais), membro da ABRAPESP e do GT de Psicologia do Esporte do CFP, além de Coordenador das Comissões de Psicologia do Esporte e de Comunicação do CRP 04/MG, onde é conselheiro.

CRP 01/DF Entrevista com a psicanalista Regina Navarro

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No mês dos relacionamentos, o CRP 01/DF traz uma entrevista com a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins. Ex-professora de Psicologia do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Regina Navarro foi colunista de diversos jornais e apresentou programas de rádio.Tem um blog no portal Uol, realiza palestras sobre relacionamento amoroso em várias cidades do país, é consultora e participante do programa Amor&Sexo, da TV Globo, e colunista semanal do programa Em Pauta, da Globonews. É autora de doze livros, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”,  “O Livro do Amor” e “Novas Formas de Amar”, recentemente lançado. Confira:

Em seu livro “Novas Formas de Amar” você aborda as formas tradicionais de relacionamento e fala de outros caminhos possíveis para viver o amor. Você acredita que essas outras formas de amar, como os relacionamentos poliamorosos, por exemplo, tendem a ser encarados de maneira mais natural pela nossa sociedade, inclusive com o reconhecimento legal? Já podemos falar em uma mudança de mentalidade nesse sentido?

Acredito que sim. Estamos no meio de um processo de profunda mudança de mentalidade, que se iniciou nos anos 1960, a partir da pílula e dos movimentos de contracultura. Muitos duvidam dessas mudanças, mas aí os convido a fazer uma viagem no tempo. Imagina se chegássemos aos anos 1950/1960, e lá disséssemos que algumas décadas depois as moças não mais se casariam virgens. Iriam nos chamar de loucos; diriam que a sociedade não estava preparada pra isso. Afinal, a virgindade era um valor. O mesmo ocorreria se disséssemos que algumas décadas depois a separação de um casal seria comum. Naquela época, a separação de um casal era uma tragédia familiar; muitas escolas não aceitavam filhos de pais separados. Isso não mudou?

Estamos reaprendendo a amar?

Sim. O amor é uma construção social; em cada período da História se apresenta de uma forma. O amor romântico, pelo qual todos anseiam, traz a ideia de fusão entre os amados. Ocorre que a busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso; prega que os dois se transformam num só, havendo complementação total entre eles. Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos. Esse tipo de amor está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Por isso, está se abrindo um espaço para novas formas de amar.

Falecido recentemente, o sociólogo Zygmunt Bauman parecia ver com certo receio a fluidez das relações em nosso tempo, mas há também maior liberdade nesse cenário em que a ordem é desenvolver ao máximo as possibilidades de cada um. Como você avalia esse contexto?

Acredito que as relações amorosas hoje são bem melhores do que em qualquer outra época anterior e a tendência é melhorar mais. Mas as pessoas ainda sofrem com seus desejos, medos e culpas. A questão é que muitos têm dificuldade de aceitar mudanças. Afinal, o novo assusta; o desconhecido gera insegurança. Então, muitos se agarram aos padrões conhecidos apesar de toda a insatisfação.

Como as pessoas reagem às suas críticas ao amor romântico?

Dizem que sou contra o amor. É comum se acreditar que a única forma de amor é o amor romântico. O condicionamento cultural é tão forte, que a maioria sonha em viver um romance. Esse tipo de amor apresenta atitudes e ideais próprios. Contém a ideia de que duas pessoas se transformam numa só, havendo complementação total e nada lhes faltando. Entre outras regras, prega: que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, que o amado é a única fonte de interesse do outro, que um terá todas as suas necessidades atendidas pelo parceiro, etc… Por isso o amor romântico não resiste à convivência diária do casamento. Nela, a excessiva intimidade torna obrigatório enxergar o parceiro como é realmente e a idealização não tem mais como se sustentar. O desencanto é inevitável trazendo além do tédio, sofrimento e a sensação de ter sido enganado.

O que você tem observado de novidade na vida a dois?

Hoje observo que o maior desafio que os casais estão vivendo é uma das partes propor abertura na relação e a outra parte se desesperar. Isso tem acontecido de quatro a cinco anos pra cá. Tenho consultório há 45 anos, recebo mensagens por causa dos meus artigos, programas de TV e livros, e nunca tinha acontecido isso. Agora tenho visto muito, atendo casais de todas as idades, que uma das partes deseja ter relação com outras pessoas ou então uma prática sexual pouco habitual como o sexo a três.

Emancipação feminina, liberdade sexual e desenvolvimento pessoal cabem no ideal de amor romântico?

Não. O amor romântico, por conta de seus ideais e suas expectativas, enquadra homens e mulheres em modelos. A crença de que os dois devem se tornar um só faz com que as singularidades de cada um desapareçam. Uma das características fundamentais para uma boa relação amorosa é se livrar da ideia de fusão e preservar a distinção entre si próprio e o outro. A pessoa amada é vista e aceita como tendo uma identidade inteiramente separada do parceiro, o que favorece a relação. Entretanto, é bastante comum não se perceber nem se respeitar a individualidade do outro, o que gera desentendimentos e sofrimento. O respeito à individualidade do parceiro, como o fato de cultivá-la, é crucial. A vida a dois se complica quando um dos parceiros tem tanto medo da solidão, é tão dependente, que se agarra ao outro como um náufrago.

Você ressalta que a ideia de amor, como conhecemos hoje, só ganhou espaço no casamento a partir da década de 1940 e que antes disso as relações eram baseadas em uma troca do homem provedor e da mulher cuidadora, estando atualmente o foco na realização afetiva e no prazer sexual. Nos moldes do casamento tradicional, desenvolver ou mesmo manter esses dois aspectos não é algo muito comum. O que se fala, em boa parte dos casos, é que o tempo vai desgastando a paixão e o desejo pelo outro. Como lidar com esse cenário?

O sexo é o maior problema vivido pelos casais numa relação estável —namoro ou casamento. É muito comum mulheres fazerem sexo com seus parceiros fixos sem nenhuma vontade, por obrigação. Alguns casais se amam, manifestam carinho entre eles, mas vivem juntos como se fossem irmãos. Não é raro a escassez de sexo progredir até a ausência total. Muitos têm dificuldade de entender essa situação, porque acreditam que amar uma pessoa significa naturalmente sentir desejo sexual por ela.

Por que isso acontece?

Ao mesmo tempo que sentimos necessidade de segurança e aconchego —  o que nos faz buscar relações fixas, estáveis e duradouras —, também sentimos necessidade de liberdade, de aventura e daquela sensação de frio na barriga sempre que vemos a pessoa amada. Nem todos consideram amor e desejo inseparáveis. Em muitos casos a expressão erótica é inibida quando há grande intimidade emocional. Quando os dois se fecham na relação, não é a falta, mas o excesso de proximidade que impede o desejo.  Concordo com terapeuta de casais belga Esther Perel quando diz que o erotismo exige distância, viceja no espaço entre eu e o outro. Para entrar em comunhão com a pessoa amada, precisamos ser capazes de tolerar esse vazio e seu véu de incertezas. Talvez tivéssemos uma vida sexual mais excitante e alegre se fôssemos menos tolhidos por nossa inclinação para a democracia na cama. 

Apesar do crescimento de outras formas de amar, como o poliamor, relações livres, amor a três, é possível viver bem a dois?

Acredito que um casamento pode ser ótimo. Mas para isso as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois, como, por exemplo, a ideia de que os dois vão se transformar num só; a crença de que um terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro; não poder ter nenhum interesse em que o amado não faça parte; o controle de qualquer aspecto da vida do outro. É fundamental que haja respeito total ao outro, ao seu jeito de pensar e de ser e às suas escolhas; liberdade de ir e vir, ter amigos em separado e programas independentes. Caso contrário, a maioria das relações, com o tempo, se tornam sufocantes.

Algumas obras da autora:

CRP 01/DF Entrevista com a psicóloga Laura Muller

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Neste 12 de junho, Dia dos Namorados, o CRP 01/DF entrevista a psicóloga clínica, palestrante e especialista em educação sexual, Laura Muller. Desde 2007 é a sexóloga do programa Altas Horas, da TV Globo, e autora de livros como “Sexo para adultos – Tudo o que você sempre quis saber, mas não tinha coragem de perguntar”, “Meu amigo quer saber… Tudo sobre sexo” e “Educação sexual em 8 lições – Como orientar da infância à adolescência – Um guia para professores e pais”. Confira:

Mesmo com o aparente avanço de segmentos conservadores no campo político, a Justiça brasileira e parte significativa dos veículos midiáticos têm ampliado a discussão de temas ainda considerados polêmicos por parte da sociedade, como direitos das pessoas transgêneras, relacionamentos homoafetivos, reconhecimento de união estável entre mais de duas pessoas, entre outros. Você acredita que os brasileiros estão respeitando mais outras formas de viver o amor e a sexualidade?

Sim, eu acredito que a gente está mudando esse jeito de lidar com a tolerância a toda essa diversidade, mas ainda tem muito que caminhar.

Acompanhando suas participações em programas de televisão, muitas vezes observamos que algumas pessoas, até mesmo mais jovens, demonstram certa vergonha ao expor dúvidas sobre sexo e relacionamento. Pela sua experiência como psicóloga e consultora na área, você avalia que os casais têm conversado de maneira satisfatória sobre esses assuntos?

A minha avaliação é que sexo ainda é um assunto tabu na nossa cultura e os casais têm se aberto cada vez mais a conversar sobre isso de uma maneira mais ampla e esclarecedora e têm tido também uma atitude de busca por informação, mas ainda estamos no começo de uma abertura, como disse, ainda tem muito que caminhar.

Com toda a movimentação de informações promovida pelas redes sociais, temos a impressão de que as mulheres estão cada vez mais conscientes e ávidas por igualdade nas relações, o que se estende ao sexo, à divisão de tarefas e esforços, às diferentes formas de demonstração de afeto e de interesse pelo prazer do parceiro ou da parceira. Como abordar esses assuntos com a pessoa amada sem provocar ruídos na relação?

Um jeito de abordar isso talvez seja ser mais o franca possível, mas também ter uma dimensão de se colocar no lugar do outro porque o que eu tenho observado nos últimos tempos são as mulheres indo para um extremo e se tornando quase inimigas dos homens, como se fosse uma guerra entre os sexos. Então a mulher de vítima, passando a opressora e isso não é uma atitude muito saudável para os relacionamentos a dois.

O cinema, as novelas e outras obras costumam associar a terapia conjugal à tentativa de resolver problemas nas relações, mas é possível também buscar essa experiência para melhorar o que já está bom? Terapia conjugal pode ajudar a melhorar o sexo, por exemplo?

Sim, qualquer tipo de trabalho em consultório pode ajudar a melhorar as relações amorosas, sexuais e, principalmente, a relação da pessoa consigo mesma.

Existe receita para um bom relacionamento? Como os casais podem evitar conflitos e aproveitar a relação de uma forma saudável e prazerosa para ambos?

Eu acredito que a melhor forma de aproveitar uma relação de maneira prazerosa e saudável para ambos é sempre ter em mente a questão do respeito, do respeito a si mesmo, aos seus limites, às suas possibilidades, e o respeito à pessoa que está ao seu lado. Isso eu falo sempre nas palestras que dou pelo Brasil afora e acho que é um bom jeito de encarar a sexualidade e a vida como um todo.

CRP 01/DF Entrevista com Ana Brandão: A Psicologia no atendimento às crianças vítimas de violência

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Na última segunda-feira (04), foi celebrado o Dia Mundial das Crianças Vítimas de Agressão, data que alerta para as condições de violência em que algumas delas estão sujeitas em várias partes do mundo. Para falar sobre o tema, convidamos a psicóloga Ana Brandão, que aborda o atendimento psicológico na área, os desafios no Brasil e as possibilidades de avanço na articulação das redes de apoio locais.

Psicóloga jurídica, Ana Maria Mendes Brandão é gestora em Políticas Públicas e Gestão Governamental, atuando na Defensoria Pública do DF, no Núcleo de Assistência Jurídica da Infância e Juventude, tendo mais de 10 anos de experiência na área. É mediadora e conciliadora pelo TJDFT.

Confira:

Uma série de questões coloca hoje crianças de todo o mundo em situação de vulnerabilidade. Guerras, pobreza e desigualdade social estão entre elas. Como psicóloga, como você avalia o contexto atual no que se refere às políticas públicas voltadas às crianças e aos adolescentes no Brasil? Temos avançado na proteção e na garantia de direitos?

Atualmente verificamos uma preocupação e uma divulgação de programas relacionados à proteção e à garantia dos direitos, por todo país, de crianças e adolescentes, tendo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como diretriz. Ressaltamos que infelizmente existem muitas lacunas para a eficiência da aplicação das políticas públicas, a exemplo falta de creche, ensino público eficiente, saúde eficaz. É certo que atualmente, apesar do esforço de órgãos responsáveis pelo desenvolvimento e administração das políticas públicas voltadas para a proteção de criança e adolescente, ainda temos muito que caminhar. Uma das dificuldades enfrentadas para a execução dos programas de proteção é o tamanho do território brasileiro, que apresenta necessidades peculiares de cada região, impossibilitando a aplicação de medidas uniformes e eficientes. Também temos a falta de conhecimento da sociedade sobre a problemática enfrentada por essas crianças e adolescentes e as consequências das mesmas. Exemplo disso é o número assustador de crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente e cometendo ato infracional que se tornam invisíveis diante da sociedade.

Quais são atualmente os principais desafios postos aos profissionais de Psicologia que trabalham com crianças vítimas de agressão? Existem peculiaridades na região?

O maior desafio é tornar a violência pública para que a rede de proteção possa efetivamente prestar auxilio a essas vítimas, uma vez que infelizmente a maioria dos agressores estão no âmbito familiar. É preciso conscientizar a população que crianças e adolescentes são sujeitos de direito e trabalhar com o empoderamento dos mesmos, possibilitando ressignificar toda violência sofrida.

Que habilidades ou competências um psicólogo deve desenvolver para atuar na área?

O psicólogo deve ter capacidade de ouvir o outro, deixando de lado ideias generalizadas sobre demanda, capacidade de identificar comportamentos e sinais emitidos pelas crianças e adolescentes em situação de violência, lidar com possíveis frustrações, conhecimento da rede de apoio e estar vinculado a ela.

Como você avalia hoje a articulação das redes de apoio no Distrito Federal para proteção da criança e do adolescente?

A rede de apoio no DF tem feito ações efetivas, entretanto existem obstáculos que impedem ações mais amplas, como a falta de comunicação entre os órgãos envolvidos na proteção e garantia de direito de criança e adolescente e a falta de conhecimento da sociedade civil relacionada ao papel dos órgãos de proteção integral da criança e do adolescente. Com fim de tornar a política pública efetiva no tange à proteção da criança e do adolescente no DF, a Defensoria Pública está implementando o Projeto de Atendimento Integrado – PAI, o qual prevê a atuação conjunta com os Conselhos Tutelares do DF.

O que você diria para um profissional que pretende trabalhar com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade? O que a motiva diariamente a trabalhar na área?

Diria que ele precisa ter amor pela causa, um olhar diferenciado, entendendo as peculiaridades de cada caso, ter bom referencial teórico, conhecimento e articulação com a Rede de apoio do DF, além de focar na proteção integral da criança e do adolescente sem julgamento.